Deus, os cordeiros e o lobo

Desde os primeiros minutos de O Mensageiro do Diabo, Charles Laughton demonstra ser um diretor com uma grande sensibilidade para as imagens e a construção de uma única tonalidade e atmosfera narrativa precisamente adequadas à história: ao mesmo tempo em que a voz em off de Rachel Cooper (Lillian Gish) fala, para algumas crianças, porém sobretudo, também ao espectador, de “lobos em pele de cordeiro”, o diretor utiliza nítidos planos aéreos, primeiro para mostrar o corpo sem vida de uma mulher sendo observado por um grupo de crianças (uma vítima desses “lobos”), em um exercício imagético que é quase um resumo do próprio filme: o perigo do mal e uma de suas consequências, a morte, sendo observada por crianças, claro símbolo da inocência, começando a tomar consciência de uma vida bem mais brutal e perigosa do que suas brincadeiras parecem proclamar. O modo como Laughton exibe a cena com a câmera aérea invadindo, pelas costas das crianças, o corpo caído da mulher e o negro buraco – o inferno, na vera, centímetros a sua frente, é emblemático – e depois para mostrar pela primeira vez o “lobo”: o pastor Harry Powell (Robert Mitchum) que sempre viaja para buscar novas vítimas.

O repúdio que o filme de Laughton sofreu à época de seu lançamento em 1955 é hoje um contraponto valioso ao reconhecimento crítico posterior. É absolutamente compreensível o modo conturbado no qual a obra foi recebida há cinquenta e seis anos. Seguramente a sua transversalidade de gêneros foi um fator determinante tanto para o seu inicial fracasso como para seu posterior respeito. Entre as as variantes do cinema infantil, de horror, do fantástico, do western, do expressionismo… e inclusive do cinema religioso e, paradoxalmente com o anterior, do cinema realista e social, político, alcançando hipnóticas sequências de contos de fadas, o filme é um perene retrato da luta entre o Bem e o Mal em uma representação imaculada. Como ícone seminal da figura do serial killer, destacada no personagem de Mitchum, epítome desse Mal absoluto que, para maior eloquência, se reveste com os trajes e as palavras de um reverendo, em uma inversão de papéis aonde o representante do bem exerce um diabólico sadismo, uma satânica violência, que corresponde aos pecados capitais: a ganância (o fascínio pelo dinheiro) e, principalmente, seu visceral ódio à vaidade, encarnado na pele de todas as mulheres com quem ele cruza.

Racionalmente, seu instinto psicótico responde a uma espécie de messianismo misógino, como evidenciado pelos parlamentos que envolve Deus a quem, segundo Harry Powell, não se importa se ele mata, pois a própria Bíblia está cheia de mortes (como um cenário que corrobora, durante o “diálogo” aparece um cemitério): “porém há algo que tu odeias, Senhor. Os seres perfurmados, os seres preguiçosos, seres com cabelos ondulados”. As fisionomias violentas as quais Mitchum brilhantemente impõe ao seu personagem durante a cena evidencia a “verdade” e “sinceridade” de seu discurso. Aliás, essas violentas expressões de Mitchum acoplam-se perfeitamente na revisitação expressionista da fotografia de Stanley Cortez, fotógrafo também de O Quarto Mandamento (The Magnificent Amberson, 1942), de Orson Welles, outro filme estranho e singular.

A “espada vingadora” de Powell é um afiado canivete, seu instrumento assassino, cujo símbolo é a sua excitação interior, um ato reflexo que se ativa diante de todo componente erótico, vital. Tal é o caso de sua prisão no início do filme enquanto contempla um show de striptease: a imagem da bailarina desata sua ira, transnominalmente refletida na lâmina da navalha que rasga o bolso de sua camisa: “Há tantos seres assim, não posso matar todos”, confessa Harry Powell ao seu Deus. Indubitavelmente, a “arma” mais eficiente de Powell é a sua retórica. Sua capacidade de sedução à la Don Juan, mas sem a busca da figura erótica, sem o impulso sexual. Um Barba Azul que negava o contato carnal (momento esse exibido em uma das grandes cenas do filme, quando sua nova esposa na noite de núpcias sofre um repúdio corpóreo e aurático de seu novo marido), sendo o seu único gesto “sensual”, seu contato mortífero com as mulheres através de sua lâmina.

E a mais extraordinária sequência do filme é a fuga do casal das crianças protagonistas em um barco, deixando enfurecido o satânico reverendo. Uma fuga, noturna, há de se grafar, numa metáfora extraordinária dos cordeiros que desesperadamente fogem da imagem-morte do Lobo. O espaço dramático que Laughton faz com que Mitchum – e também as sombras do ator, dos coadjuvantes, das árvores, do tempo – seja visualizado suporta qualquer (re)visão histriônica.

O filme (por mais irreal e incoerente que possa parecer essa colocação) é uma reflexão sobre a infância, sobretudo pelo modo narrativo que ilumina todo o relato. Frente ao ser fundido à maldade, o reverendo Powell; frente ao equivocado mas bem intencionado pai-ladrão das crianças protagonistas; frente a mãe que insiste em fugir da realidade (esmagando primeiramente o seu ex-marido com pedidos irreais e posteriormente com o novo marido, o reverendo Powell, se entregando a um misticismo evasivo); frente aos ingênuos e cambaleantes habitantes e por fim e definitivamente, frente ao complexo e inseguro mundo adulto, Laughton parece afirmar que a verdadeira fortaleza interior se encontra na plena e simples pureza infantil – um estágio que o Mal nunca poderá penetrar, talvez por isso Powell nunca tenha conseguido executar seus planos medonhos quando alguma criança estava presente. O garoto protagonista em nenhum momento considera a possibilidade de trair o juramento que fez ao seu pai, nem que para isso arrisque a sua vida e a de sua irmã ainda mais nova, pois seu inocente e monolítico sentido moral é mais forte do que qualquer adulto.

Neste sentido, o filme parece ao mesmo tempo uma reinvidicação e um olhar nostálgico dessa época em que as coisas mais claras e a vontade irreversível de ser feliz poderia sobrepor-se a qualquer desgraça por mais diabólica que essa fosse, pois é na inocência do olhar que O Mensageiro do Diabo encontra sua razão em existir como primeiro e único filme dirigido por Charles Laughton.

Ricardo Lessa Filho


ISSN 2238-5290