Sob a luz da ausência – e também da retórica

Sob a luz da retórica, Tempestade Sobre Washington, de Otto Preminger e O Mensageiro do Diabo partilham de um mútuo interesse sobre a capacidade de fascistizar aqueles que rodeiam seus principais oradores. Então compartilhando esse fascismo retórico, ambos os filmes também dividem a glória da presença de um mesmo homem: Charles Laughton, que no filme de Preminger é o senador de extrema direita Seabright Cooley, enquanto que em O Mensageiro do Diabo é o próprio realizador. No primeiro e único filme que dirigiu, Laughton impõe a retórica do fascismo – religioso – através de Harry Powell (Robert Mitchum), homem de princípios diabólicos; enquanto Preminger espalha o ódio ao comunismo e a qualquer outra coisa que não faça parte do “orgulho” americano através do personagem de Laughton que, rancorosamente, vai efetivando seu pensamento intransigente pelo senado americano.

Intransigência que ganha vida porque o presidente dos E.U.A (Franchot Tone) decide nomear como Secretário do Tesouro Robert Leffingwell (Henry Fonda), homem com passado ligado ao comunismo, mas que tem a total confiança do presidente. Em um dos discursos iniciais, o personagem de Fonda diz ao senador vivido por Laughton que é necessário iniciar uma governabilidade nos E.U.A sem o orgulho exacerbado – mas como, então, poderia um governante com pensamentos fascistas entender uma vida profissional ou pessoal sem essa engrenagem primordial da extrema direita? Laughton está bem longe de ser fisicamente onipresente no filme, mas a presença de seus “ideais” é o que realmente alavanca a narrativa: a ausência física do ator é aqui o maior expoente da presença de sua consciência – que transmuta-se no consciente coletivo do senado americano. É um jogo que Preminger sabe executar com maestria (a ausência que é presença narrativa, é só lembrar de sua obra-prima: Bunny Lake Is Missing, 1965). Há uma outra longa ausência no filme – que na realidade é uma dupla ausência: de um misterioso homem enquanto objeto físico e de uma sexualidade até o último ato do filme totalmente desconhecida do espectador – que quando deixa de ser ausente muda não só todo o foco da história, como também a vida (ou a não-vida) do senador Brigham Anderson (Don Murray) responsável pelo pleito que aceitará ou não a entrada do personagem de Fonda no governo.

Tempestade Sobre Washington é um dos primeiros filmes que trata da homossexualidade de uma forma séria e madura, apresentando os protagonistas desse embate como pessoas normais, em vez de bichos raros – é necessário lembrar a época do filme, início dos anos 1960 e os gays se encontravam enclausurados no armário. Homossexualidade também tangente a Charles Laughton que foi um dos primeiros atores de renome em Hollywood a assumir publicamente sua opção sexual. Preminger reinvidica a separação dos poderes destampando neste filme um obscuro drama político sobre a corrupção e chantagem, sobre trapaças que tentam esconder as decisões governamentais essencialmente egoístas e interesseiras.

A obra parece fazer emergir um atestado à incapacidade de tentar mentir para o tempo, pois toda e qualquer tentativa de burlar o passado é um equívoco aqui (o passado comunista de Leffingwell não consegue ser mantido em segredo; o caso homossexual do senador Anderson idem; a faceta fascista de Seabright Cooley evidencia-se a cada discurso e a cada ato executado por baixo dos panos para prejudicar os políticos da oposição).

Há um momento espetacular no filme quando o personagem de Laughton encara através de um plano frontal da câmera de Preminger, o rosto do personagem de Fonda: três monstros do cinema fundidos em uma única sequência. A imagem-memória parece mitificar todo aquele momento – é impressionante a capacidade de Laughton em unificar majestosidade e mesquinhez em um único personagem (seu discurso ao fim do filme desculpando-se com os senadores é qualquer coisa de magnífica e repugnante).

Uma rara espécie lunar, assim é Tempestade Sobre Washington, cuja imensa nave narrativa comporta tripulantes do calibre de um Henry Fonda, um Charles Laughton, uma Gene Tierney. Todos assumindo papéis políticos dentro do império mais poderoso do mundo. Debatendo e modificando pontos de vistas, trespassando o mero plano físico e alcançando a direção sagrada do plano cinematográfico. Não há barreira crítica que suporte o poderio de tal tripulação, pois é no ato do tempo que eles exercem o maior dos fascínios cinéfilos: ser estritamente cinematográfico do primeiro (Ave, Saul Bass!) ao último segundo (Ave, Laughtons, Hondas, Pigdons, Tierneys!…).

Ricardo Lessa Filho


ISSN 2238-5290