Missão Madrinha de Casamento (2011, Paul Feig)

As ex-românticas

Missão Madrinha de Casamento parece desprezar toda a antiga fábula do amor eterno (principalmente para a visão feminina), do casamento como fonte irremediável da concretização desse sonho. A emoção que borbulha no filme não é a do amor da mulher apaixonada pelo homem de seus sonhos, mas de uma afetividade sexista sobrepondo todos os signos eterno-afetivos da relação entre homem e mulher. Antes de ser uma tentativa de comédia romântica, o filme, recusando os signos clássicos desse tipo de “gênero”, parece querer subverter uma “moral” estética da questão da beleza protagonizante: tanto do lado da tentativa de reescrever as qualidades de Jude Apatow para o universo essencialmente feminino, quanto de exteriorizar a “fealdade” de suas protagonistas. O filme parece querer promover, então, uma espécie de falência da beleza absurda – tão comumente esfregada nos rostos do grande público.

Annie (Kristen Wiig) não é uma personagem louvável, não é uma vítima, não é uma Barbie de carne e osso, longe disso, a personagem parece não aceitar a felicidade de sua melhor amiga Lillian (Maya Rudolph) que vai se casar, enquanto Annie contabiliza fracassos financeiros e amorosos, ou seja, o próprio casal de amigas protagonistas faz emergir a situação da antítese da comédia romântica: “velhas” (ambas já estão próximas ou na casa dos quarenta anos), as personagens parecem sintetizar todo o percurso histórico do “gênero” que as englobam, pois, ambas, aparentam ser a própria resistência do tempo – a falência da beleza absurda que é vinculada com a recusa de serem substituídas por outras mais jovens e mais bonitas. O filme é um embrulhado tendenciosamente sexista, cuja primeira metade funciona com uma força cômica descomunal e que infelizmente perde o passo em sua última meia hora – o filme é longo para o padrão do “gênero” com as suas mais de duas horas de duração.

O filme de Paul Feig segue a tendência das comédias românticas de Hollywood que nos últimos anos tratam muito mais da amizade do que do amor romântico. E parece evidente que sempre existiram filmes sobre o companheirismo e o amor afetivo entre amigo(a)s, porém, a referência aqui é sobre uma ligeira variação no que diz respeito à comédia romântica em que se exalta a amizade por cima de outros sentimentos. Em Se Beber, Não Case (The Hangover, 2009), de Todd Phillips e no excelente Superbad – É Hoje (Superbad, 2007), de Greg Mottola os objetivos românticos dos protagonistas, tanto a noiva no primeiro ou as garotas que tentam seduzir no segundo, possuem um papel secundário quando comparado ao melhor(es) amigo(s). O mesmo acontece em Missão Madrinha de Casamento, onde o futuro marido da melhor amiga aparece somente em imagens deslocadas e não possui sequer uma frase de diálogo. O autêntico clímax e a resolução principal são provenientes da reconciliação com a amiga, aqui, a verdadeira descoberta de um casal duradouro.

Ricardo Lessa Filho

Outubro de 2011


ISSN 2238-5290