Um Conto Chinês (2011, Sebastián Borensztein)

Fundo sem profundidade

1) Darín: indubitavelmente um ator de sabedoria superior à média. Um motivo para ir ver o filme é quando, dirigindo o carro no primeiro momento cuja intenção era deixar o desconhecido chinês na rua, o gesto de mau humor e ansiedade por chegar em casa, quase como se estivesse se adiantando ao volante, é perfeito. Não é um gesto grandioso, mas sutil, específico e extremamente concreto. Darín sabe ser sutil com o movimento dos músculos faciais, das mãos, dos ombros (sua atuação em Aura – El Aura, 2005 –, de Fabián Bielinsky, é um milagre de expressividade ajustada em seus ombros caídos, sem confiança), e também sabe que o mínimo excesso enfático no gesto – em uma arte claramente amplificadora como o cinema – pode levar toda a atuação para o lado da caricatura. A sabedoria dramática de Darín, em sua fotogenia, em sua excelência, descansa na grande fortaleza das relações intrapessoais de Um Conto Chinês (é necessário dizer que Muriel Santa Ana e Ignacio Huang contracenam com o astro argentino de forma fluída; e mais, se a cinematografia argentina tinha uma produção sustentável de comédias românticas, Santa Ana deveria ser uma das estrelas do gênero). Darín é, sem dúvida, um recurso natural de altíssimo valor para o cinema argentino – embora as inúmeras produções que o ator participou na última década tenham sim, de certo modo, cansado a sua imagem.

2) Falando do filme que rodeia Darín, aqui. Sim, é esforçado; sim, é profissional; sim, hoje em dia – diferentemente do que ocorria nos anos oitenta – o cinema argentino vai bem e se auto-escuta corretamente. E no filme em questão são utilizados, sem grandes equívocos, os efeitos digitais. Porém essas conquistas, neste caso, não abrangem outras conquistas da eficiência industrial, de – digamos – solidez industrial (já que o filme é anti-artesanal por essência). O argumento de Um Conto Chinês é raquítico, e parte de um ponto demasiadamente pré-maturo: um chinês, após ter presenciado a morte de sua noiva por uma vaca voadora, decide ir para a capital argentina na esperança de encontrar um de seus tios. Mas tudo no filme gira em falso. O relato da relação entre Roberto (Darín) e Mari (Santa Ana) – então apresentado por um primeiro flashback de timing perfeito –, se pontua e se repete nas duas primeiras vezes para o mesmo, de forma redundante, e a terceira ou quarta vez que Mari o provoca sem êxito faz com que o espectador deseje algum tipo de novidade diante daquela situação, outro enfoque, variedade nos recursos humorísticos e/ou narrativos. Algo similar sucede na relação entre Roberto e o chinês Jun (Huang). Afortunadamente, o filme não abusa do recurso “que maravilhoso é um ser humano falar outro idioma” e há certa sobriedade na exposição das “diferenças culturais”. Porém, a partir da metade do relato, sem grandes novidades na história de amor nem na relação entre Roberto e Juan, o filme se perde e os defeitos se fazem mais evidentes (o retorno unidimensional do policial agredido por Roberto é uma tentativa falível e indiferente de tentar dar mais ritmo à história). Sim – como é neste caso –, o filme imitará inúmeras fórmulas do cinema popular americano (as sequências de montagens incluídas no cardápio) e a falta de criação de personagens secundários decentes, que em Um Conto Chinês são apenas maquetes necessitando do reconhecimento imediato de um público distraído, como acontece em abundância na televisão.

3) E sobre o final, no lugar de confiar nos recursos já provados sobre a história (desde seu início o filme quer fazer o espectador acreditar que todo aquele relato é baseado em fatos reais) com alguma boa set-piece cômica ou uma canção, Um Conto Chinês apela para os flashbacks tão simplórios como anti-climáticos, e que tentam colocar novas linhas argumentativas que naquela altura só podem ser apresentadas de forma fechada e estéril, que funcionam como uma bigorna, mas como o filme não é artesanal, há um deslocamento, digamos assim, da ferramenta de trabalho. De todos os modos, o filme de Sebastián Borensztein está longe dos expoentes mais qualitativamente ativos do cinema de indústria da Argentina, pois para ter brilho próprio, que era o que necessitava esse filme profissional – de conceito, de venda e de marketing profissionais, de perfeito poster profissional – era fazer com que o espectador acreditasse, como fizeram Bielinsky e Campanella, que suas amplas aspirações de bilheteria possuem um correlato na proposta, no armado, em um trabalho mais substancial, em uma visão expressiva menos esquecível, em um fundo com alguma profundidade.

Ricardo Lessa Filho

Outubro de 2011


ISSN 2238-5290