Natimorto (2009, Paulo Machline)

A insustentável leveza do plano

Natimorto reage à imagem cinematográfica de uma forma extremamente debilitada: seu sentido de composição é quase um menosprezo ao plano filmado – a célula básica do cinema – e como consequência, tenta se apegar à montagem de uma forma desesperadora, agoniante, cujo resultado final agoniza na própria incapacidade do filme em ser cinemático, sendo engolido por uma certa sensação de fraqueza de seu mundo iluminado de ostensivas luzes neón e rodeado por personagens que são o símbolo daquela suposta “profundidade” humana de ver e sentir as coisas – principalmente o protagonista (Lourenço Mutarelli, que também é o autor do livro homônimo que deu origem ao filme) que é no fundo o canibal de sua própria imagem-vida.

Nessa exacerbação da montagem é necessário, antes de tudo, tentar perceber e compreender a significação dela como ponto de colisão no processo cinematográfico do filme dirigido por Paulo Machline: Natimorto se arma para montagem porque parece saber da falsificação de seu mundo “orgânico” e tenta através dela conceber certa sensação de “cinema puro”, mas não consegue alcançar essa meta pois sua essência é teatralizante – e todo o organismo presente no filme de Machline parece metamorfosear não para o filme-cinema, mas para o filme-teatro. É o teatro, mais do que tudo, que parece coagular o desenvolvimento do cinema nacional – a maioria do avanço da forma do cinema brasileiro possui muitos mais signos teatralizados do que propriamente cinematográficos. Natimorto mesmo, faz do quarto em que os protagonistas passam todo o filme em um espaço-palco e as atuações não encaixam na célula-plano, que parece recusar esses “organismos” por intolerância irredutível ao tetralizante. A primordialidade da imagem do filme é uma imagem trocada por outras imagens (que deveriam apenas sustentar, mas nunca substituí-la) do tarô, dos maços de cigarros, de dispositivos que nunca evidenciam o processo do plano – a necessidade de ser orgânico.

Na tentativa de trazer a cantora (Simone Spoladore) para o seu mundo, o personagem de Mutarelli não conseguindo consumi-la, comete um ato condenável proporcional ao que Natimorto comete com o cinema: o primeiro simplesmente se auto-degenera, enquanto o segundo tenta transformar o teatralizante em cinematográfico, mas esquece que o teatro cinematográfico é uma vertente do próprio teatro e não do cinema, cujas tentativas de tornar tudo aquilo em um organismo vivo vai à lama pela falta da execução natural do plano – talvez o elemento mais orgânico de todo cinema.

Ricardo Lessa Filho

Dezembro de 2011


ISSN 2238-5290