Amanhecer – Parte I (2011, Bill Condon)

Pouca ou nenhuma consideração pode ser acrescida ao que escrevi sobre Eclipse agora que vemos lançada mais uma parte da saga Crepúsculo. Não adianta dizer que os problemas aumentaram, pois na mesma escala, a capacidade de reflexo da franquia para com o nicho que a idolatra também se intensificou, não sendo possível ignorar as conseqüências de tamanho fenômeno. Ver todo um sistema de divulgação ser quase paralisado a favor de um filme que só permite a continuidade junto aos que acompanham o seriado (pois é exatamente de uma linguagem televisiva que falamos aqui, sem querer denegrir os méritos do suporte que tem sido mais cinematográfico do que muitos cinemas) é dos incômodos o menor, se sabemos que esta ainda não foi a última vez que isto aconteceu.

Sem preocupar-se com introduções ou desfechos conclusivos, Amanhecer é o produto-meio que só importa para ir direto aos ‘finalmentes’, ao que todos os fãs esperavam de uma adaptação que prometia o sangue e o sexo outrora prenunciados. E lá estão. Sangue e sexo devidamente filtrados pela censura, prontos para consumo. Do pesadelo sofrido por Bella na véspera do casamento (única cena do filme que permite o deslocamento abandonado pela franquia desde seu primeiro título) à mais aguardada lua-de-mel que se tem notícia, eis o cinema de plástico que tão bem demarca este 2011 todo plastificado que temos vivido nas salas escuras.

Ora, se são os filmes de plástico que hoje completam os circuitos alternativos das ‘sessões de arte’ (nos mesmos multiplex infestados por Amanhecer), que preenchem massivamente o calendário de lançamentos, as cadernetas-blogs dos cinéfilos, e que ganham premiações máximas nos festivais mais conceituados do mundo, não dá pra acusar um filme como Amanhecer de ser um estranho no ninho cinematográfico. Na verdade, o que mais espanta da experiência de enfrentar este filme numa sala de cinema é perceber que há nele diversos elementos presentes numa assoladora maioria das sessões vividas nos últimos doze meses.

Para ficar somente num exemplo (e não porque seja o mais polêmico, mas porque foi o mais evidente para mim enquanto espectador), há uma constrangedora semelhança nas cenas digitais que representam a formação molecular do feto-monstro aguardado pela grávida Bella com aquelas pomposas imagens que celebraram A Árvore da Vida como um retrato da criação do mundo. Num e noutro filme a expectativa de uma origem que já traz em si o luto, seja o do filho perdido em Malick, ou o do sacrifício feito por Bella em tornar-se vampira para permanecer ao lado de quem ama. Filmes que, anacronicamente, delimitam um cinema disposto a atravessar a morte (e talvez nela ficar) para vislumbrar o início das coisas, sem com isso preocupar-se com o estado ontológico da própria imagem, plastificando o que deveria ser terreno fértil, erótico, estético.

A sobra de tais referências é a derradeira lembrança de Amanhecer, assim como de outros e tantos filmes que passam sem deixar rastro que não seja o já provado por outros anteriores, e certezas de que outras repetições virão e mais uma vez lotarão estes espaços plastificados, neutralizados contra o olhar. Filmes que se afastam da memória como plumas, como a brisa que não causa mais do que um arrepio na pele. Se ainda há pele.

Fernando Mendonça

Dezembro de 2011


ISSN 2238-5290