Apresentação

A construção de uma imagem

“Por que John Hughes?”. Existe a possibilidade de que sejamos incisivamente indagados por tal pergunta, gerada dentro do cérebro de alguns leitores quanto a esta – talvez óbvia! – escolha.

Como, então, podemos nos “defender”? Como nos “justificar” numa resposta objetiva (se é que isso é mesmo necessário), já que, em meio às dezenas ou centenas de filmes que constituíram o piso de nossos imaginários, escolhemos, para um breve recorte, justo os filmes desse diretor, desse alguém que por anos a fio é visto como um “autor”, dono de infâncias e adolescências, presença que parece de alguma forma ir contra toda a estrutura esparsa e dispersa que tentamos apresentar aqui neste número de filmes “individuais” que se conectam quase que exclusivamente, um ao outro, apenas por pertencerem a gêneros em comum ou por causarem emoções paralelas, complementares e similares, dentro de uma época em especial de nossas vidas? Que “retorno ao autor” é este, dentro de uma edição onde todo filme – isolado de uma filmografia que supostamente lhe obrigaria determinada coerência de linguagem, de discurso e de comportamento – é uma “assinatura” e uma “autoria” decididamente vindas de unidades muito particulares, fruto da imaginação de diretores (e produtoras, certamente) quase anônimos?

Possuímos o que talvez seja um frágil esboço de argumentação, esqueleto mal-formado e de datadas articulações. Porque ao olhar os filmes que procedemos e preferimos nesse retorno a eles alguns anos depois (alguns, nem tantos anos assim), talvez importem de fato, mais do que tudo, as imagens que restaram, as que ficaram na mente, as reminiscências reencontradas – ou melhor, as imagens que se sedimentaram como imagens que recordamos. Partindo das palavras que que dão título a essa pequena apresentação, fica mais ou menos claro o motivo pelo qual acabamos por escolher Hughes para figurar este micro-especial dentro de nossa extensa edição sobre os filmes seminais da infância: a questão de filmes, cenas ou situações que estabeleceram estéticas tão profundas que se tornaram, antes, elas mesmas, imagens e posturas que classificariam, exatamente, o “tipo” dessas obras.

No cinema de Hughes, que aqui entre os membros do Filmologia nem sempre constituiu base para as imagens que marcaram o período que tocamos nesta edição, existe o desenvolvimento de uma forma que evolui e se aperfeiçoa a cada filme, e se solidifica como uma imagem que define não só esse cinema, mas toda uma certa série de filmes dos/sobre os anos 80 – aqueles yuppies, demasiadamente yuppies – e os signos básicos da imagem ideal que certamente dá conta, na memória e no coração, de parte importante desse período do cinema que nos transpassou deixando graves e indeléveis marcas incicatrizáveis que nos ensinaram, enfim, a falar.

Tais “marcas de autoria” e seus profundos cortes em nossa (in)consciência, têm relevo não só nos filmes dirigidos por Hughes, mas talvez sobretudo naqueles em que ele escreveu o roteiro. Tais filmes parecem provar essa espécie de quase infecção viral propelida pela força de sua estética e de seu olhar honesto ao sujeito adolescente: existem ali, em produções como A Garota de Rosa-Shocking (1986), Esqueceram de Mim (1990) e Beethoven – O Magnífico (1992), uma assinatura autoral e um modus operandi de afeto e de ação, que, como imagem, muito formalizou e deu face aos mecanismos do que podemos chamar, dessa vez informalmente, de estrutura básica de um “filme da Sessão da Tarde”.

Nesse pequeno ingressar no mundo de John Hughes, atravessamos, incontestavelmente, uma série de matérias que se repetem e que fazem parte dessa “assinatura”, objetos de construção emotiva e visual: encontramos os mesmos escandalosos cortes de cabelo, os momentos de silêncio angustiante e de frases impagáveis, os momentos de um perigo puramente cênico, assustador, os planos de liberdade inacreditável, concebível apenas como cinema e utopia. E também, quase sempre, encontramos as formas perfeitas das imagens que, próximas de todas as possíveis epifanias e impossibilidades, falam, a nós, membros, diretamente aos garotos de 7, 8 anos que vivenciaram essa espécie de grafia e tomaram-na como a grande verdade daqueles mundos.

Ranieri Brandão


ISSN 2238-5290