Curtindo a Vida Adoidado (1986, John Hughes)

Talvez não haja mais nada a ser dito sobre um filme como Curtindo a Vida Adoidado. Todas as considerações que solidificaram a obra-prima de John Hughes no inquestionável retrato de uma geração parecem ter dado conta da dignidade que o título realmente possui. Por outro lado, coisa típica da arte, ainda há muito a ser experimentado com o mesmo filme; sensações a serem descobertas por novos e velhos públicos, seja no prazer de um primeiro contato ou numa revisão, Curtindo a Vida, é fato, continua a desafiar limites.

A atitude reacionária dos jovens que conduzem a aventura de Hughes, não por reagirem ao mundo, mas contra o que trazem dentro de si e de sua prática cotidiana, relaciona-se obviamente a toda uma trajetória cinematográfica que, desde Juventude Transviada, importa-se em fazer do espetáculo juvenil um arcabouço de reflexões que não prescinde da irreverência e efemeridade típicas da pouca idade para adentrar em questões fundamentais ao status quo de uma sociedade maior. Muito antes de qualquer acusação contra os riscos corridos por Hughes ao nunca abandonar esta fase específica da humanidade (de uma puberdade eterna), é preciso considerar a condição do próprio maquinário cinematográfico enquanto suporte irreverente e efêmero desde seu surgimento. Por mais que o filão teen no cinema americano dos anos 80 (melhor época do subgênero) dê margem a um estado alienante do espetáculo, a existência de Curtindo a Vida comprova que até mesmo a alienação tem sua política, sua conjugação de valores inseparáveis ao contexto que possibilita a manifestação estética.

É bastante sintomática a contramão que os protagonistas de Hughes enfrentam ao desafiarem as pequenas autoridades instituídas de suas vidas (pais, professores, direção escolar); o desafio, longe de pretender qualquer dano social, consiste tão somente em encontrar a parcela de alegria necessária para que o dia vivido valha seu tempo, sua passagem, quase como numa jornada joyceana de expiação. Tem-se um dia para viver, um mundo para desbravar e uma série de desejos a serem satisfeitos; quem de nós consegue escapar disso?

Ao fugirem do dia letivo, os três jovens de Curtindo a Vida partem rumo a experiências que, dentro de um caráter urbano (e Hughes nunca foge deste habitat), revelam-se singulares e curiosamente portadoras de significados dos mais diversos. O adentrar em espaços de concentração pública (estádios esportivos, bolsa de valores, desfiles patrióticos) reverte a introspecção dos personagens deslocando suas expectativas e sensorialidade, contaminando assim a concepção primeira do filme e tornando este um libelo contra o lugar comum da previsibilidade. Ora, nada menos previsível do que imaginar três jovens ‘matando aula’ para visitar um museu de artes plásticas…

A sequência do museu, pelo bom humor natural de sua premissa, permite algumas considerações fundamentais ao projeto de cinema abraçado por John Hughes. Cabe aqui a lembrança de um momento específico dentro daquele espaço, vivido pelo personagem de Alan Ruck: quando, afastado do casal de amigos, ele contempla, sozinho, uma tela de George Seurat, Le Dimanche a La Grande Jatte, e pela montagem paralela, nos aproximamos metodicamente dos olhos do ator e da superfície pictórica, em supercloses extremos e asfixiantes. Emergem destes olhos e do contraste causado pelo quadro pós-impressionista um cinema empírico, que concentra o principal feito de Hughes em Curtindo a Vida, o de incentivar a experiência humana em seu estado bruto, seja no contato com o mundo, o outro ou a subjetividade de um mesmo indivíduo.

Ao mesmo tempo em que o filme de Hughes conspira contra os rígidos padrões da sociedade (mais uma vez, sem desejar provocar nenhum dano contra estes), ele também deixa bem clara sua postura de insurgir-se contra todo um sistema fílmico, por mais que ele esteja plenamente inserido nisto. Não é por acaso que na curtição daquele dia, seus jovens não passem nem perto de uma sala de cinema; todas as referências ao imaginário da sétima arte surgem como que atravessadas por outras infinitas dimensões, atestando uma impossibilidade do movimento puro que não deixa de ser típica para a geração oitentista. Dando fuga para os personagens, Hughes parece fazer o mesmo com a totalidade de seu filme, o que é ainda mais valorizado pela permanência de Curtindo a Vida no tempo, mesmo em relação a outros títulos do diretor.

Fugir do cinema para terminar nele é, finalmente, o que Curtindo a Vida realiza, pois com a aventura dos jovens não há um aniquilamento da rotina, mas sim uma suspensão dos acontecimentos em detrimento de outros mais profundos. Acima de julgamento, não há no filme uma pretensão de escolha do que deve ou não ser vivido e é nesta liberdade do olhar que Hughes sustenta o vigor de seu trabalho. Se parece haver pouco a ser dito sobre um filme seu – este delicioso engano que a aparência traz em si –, é porque Hughes não filma para o verbo, ou qualquer lógica que não esteja no gozo de viver. Daí a graça de filmar a vida.

Fernando Mendonça


ISSN 2238-5290