Antes Só Do Que Mal Acompanhado (1987, John Hughes)

O pódio da amizade

Os personagens dos filmes de John Hughes parecem sempre estar contra o não-movimento do corpo (cujo Ferris Bueller é de forma irreduzível o maior dos representantes desse “movimento hughiano”). Para eles (e para o próprio cineasta) o movimento, em todos os sentidos possíveis do corpo e da câmera, é o resultado de uma escala de sensações que, negando essa estaticidade corpórea, vai encontrar na antítese desta o seu modus operandi. E é então nesse modo operacional que Antes só do que mal acompanhado vai localizar no contraponto de seus dois protagonistas sua deslocabilidade essencial – e hughiana .

O bem sucedido Neal Page (Steve Martin) se esbarra com o gordo e simpático vendedor de anéis para cortinas Del Griffith (John Candy), e, por obra do destino, ambos acabam sendo obrigados a vivenciar os azares de uma viagem de retorno ao lar que, durante quase todo o filme intenciona o espectador a pensar que esse retorno é duplo (de Martin e Candy), mas que em seus minutos finais revela-se mais um dispositivo extremamente bem trabalhado na trama cujo sentido de retorno é amplificado também quando se abre o olhar diante das carreiras decadentes de seus protagonistas naquele ano de 1987 e como o filme devolveu a eles a credibilidade que naquele momento estava em baixa.

Na deslocabilidade de seus dois protagonistas (que de certo modo contribui no entendimento da amplitude daquelas personalidades) o filme vai intensificando a relação entre Page e Griffith que se numa primeira olhadela parecia de desprezo (do primeiro em relação ao segundo), vai, pela imposição do tempo, aprofundando – e fundindo – o sentimento da dupla. E a atmosfera cômica de Antes só do que mal acompanhado é, antes e sobretudo, fruto da relação diária de seus personagens exteriormente tão antagônicos, mas que quando adaptados aos defeitos alheios, acabam de algum modo se auto-completando que já não conseguem ignorar a falta (física e emocional) que um faz emergir no outro.

Dizer (como muitas sinopses do filme dizem) que a vida do personagem de Martin vira uma bagunça após o encontro com o personagem de Candy (que vale ressaltar aqui, está soberbo) é uma afronta à sensibilidade de Hughes: é justamente após o encontro inesperado entre Page e Griffith que o filme (re)descobre o trilho correto de sua narrativa – de seu ponto de partida e de chegada: Page, antes do encontro, era um personagem desumanizado, que bem situado economicamente, parecia não conseguir compreender a profundidade de uma amizade que nasce a partir das diferenças e por elas se legitima definitivamente como tal. Griffith, por sua vez, vivia de alguma maneira escapista, sem foco profissional ou afetivo e, após o encontro com Page, encontra nessa figura uma espécie de depósito vital para compreender o que há muito lhe falta: a necessidade de compartilhar um momento – aqui em movimento, efêmero, absurdo muitas vezes, mas ainda sim um momentum genuinamente humano.

Antes só do que mal acompanhado lateja de forma inegável sua aura cômica, mas por trás dessa aparente diversão existe o relato da compreensão e, antes dela, da solidão que parece findar quando o coração humano descobre através da convivência e do tempo, a verdadeira herança das relações humanas: a amizade. O último plano do filme sintetiza a veemência de Hughes em exercer em seus personagens o movimento, aquela deslocabilidade e o único meio possível de pará-los é congelando a imagem – e assim ele o faz nos olhos de Candy, artefato essencial para a compreensão definitiva do filme.

Ricardo Lessa Filho


ISSN 2238-5290