O Melhor da Juventude

No momento em que se decide, à luz da memória, fazer o retorno ao lugar aonde a cinefilia pela primeira vez foi acionada (ainda que muitos sequer soubessem o significado da palavra ou até mesmo o peso dos filmes da (e sobre) a infância-juventude) é de certo modo como atravessar um pântano que se em outrora – isso é, na juventude infantil – era para o espectador uma conexão da semelhança de sua vida (não necessariamente que aqueles filmes fossem idênticos a vida dele, mas indubitavelmente ele adoraria que assim fosse) seja porque na genética de todo jovem vai existir em curta ou larga escala um Ferris Bueller na linha limítrofe da explosão hormonal, seja porque na expectoração da energia desses jovens vai também existir uma sensação de liberdade e de possibilidade de conquista que jamais voltará a existir em nenhum outro momento da vida, pois como disse o próprio Ferris: “a vida passa muito rápido… e se você não curtir de vez em quando, a vida passa e você nem vê”.

O confronto que se abre é dos mais excitantes: a eterna juventude dos protagonistas do cinema jovem americano da década de 1980 contra a ex-juventude do corpo do espectador que, deparado com a obrigação de rever esses “clássicos” décadas depois tem a deliciosa constatação de que a necessidade de deslocamento daqueles queridos personagens de sua infância talvez seja o contraponto fundamental à estaticidade de sua vida adulta, porque, ao contrário do cinema cujos grandes filmes parecem se renovar na própria mobilidade temporal, a musculatura desses espectadores percorre o caminho contrário, envelhecendo através do mesmo “dispositivo” que rejuvenesce os clássicos: pois infelizmente o corpo do espectador (cinéfilo) não pode ser montado pela destreza da imagem cinematográfica – e por assim ser, inesgotável em sua plenitude.

Então o espectador (cinéfilo) conscientizado de sua “efemeridade” tem o primeiro salto à luz de sua verdadeira condição: transforma-se em cinéfilo-espectador e assim inicia o processo de reconhecimento dessa “efemeridade” não como uma perspectiva negativa, mas como potência legitimadora desse seu amor por esses filmes sobre a juventude (que é de certo modo sua própria juventude ou a juventude que ele sempre desejou), pois tão logo no momento em que consagra esses filmes da juventude ele automaticamente o auto-consagra como parte efetiva e indivisível daquele momento explosivo que foi antes de tudo o auto-retrato de uma geração: seja a adolescência sendo vibrantemente explorada como em Curtindo a Vida Adoidado (Ferris Bueller’s Day Off, 1986), de John Hughes, seja na viagem exterior (não de limites nacionalizados, mas de limites internos e de consciência) sobre o amadurecimento em Conta Comigo (Stand By Me, 1986), de Rob Reiner, o cinéfilo-espectador constituirá a noção de que o “envelhecimento” do seu corpo ante a intactabilidade desses filmes não é a legitimação de sua “efemeridade”, mas tão logo uma dupla amplificação: do amor por esses filmes que se estende no além-tempo (não à toa o retorno, décadas depois, a esses filmes causa o mesmo fascínio que causou em sua infância) e da própria definição do termo efêmero em relação ao corpo do cinéfilo-espectador.

Porque a indubitável morte desse corpo será antes de tudo a glorificação desses filmes e do próprio cinéfilo-espectador (adulto), pois na eternidade da juventude desses personagens, o cinéfilo-espectador já fora da vida que o envelheceu (nunca sua alma ou lembrança, mas apenas o físico) encontrará na mesma dimensão que ele sempre se encontrou ao assistir aqueles filmes de sua infância (agora, já com o velho corpo morto), somente aquilo que lhe resta: a alma “invelhecível”, que é a mesma do tempo pueril, conseguindo assim a junção entre a velha eternidade infantil de seus personagens e a novíssima eternidade infantil de sua alma, que agora livre, também se tornará um eterno personagem.

Ricardo Lessa Filho


ISSN 2238-5290