Gélido, talvez; irresistível, com certeza

Julgar uma imagem quando essa é provida de uma peculiaridade tão próxima ao absurdo, talvez seja um ato crítico dos mais perigosos: cair na rede dos pormenores, das artimanhas que essa figura pode expelir exige um olhar desinibido para artifícios que muito provavelmente não conseguiríamos desvincular de nosso senso crítico enquanto espectador caso ela, a imagem, não fosse um conjunto especial. E são por essas dificuldades tão sensíveis, tão absurdamente inaceitáveis caso o seu realizador não fosse um cineasta finlandês dotado das técnicas que potencializam esse absurdo para um patamar irresistível e familiarizante, que o cinema de Aki Kaurismäki como que numa mágica, daquelas que permeiam todas as infâncias, nos atinge e nocauteia, e nos faz perguntar: “por que filmes sem expressões, sem choro, sem desespero nos comove e nos move até um caminho secreto, onde o cinema é a luz e a água de toda a caminhada?”

O sucesso (em um sentido muito mais pessoal do que público, já que os filmes do cineasta somente atingem um tipo de nicho cinéfilo) do cinema deste Kaurismäki reside na criação de um “mundo cinematográfico” tão reconhecível, tão autoralmente realizado com delicadeza e eficiência, que a redução do máximo do essencial do “mundo real” em nenhum momento fez com que o mundo cinematograficamente criado tenha comprometido seus personagens, suas fantasias narrativas. E é nesse complexo jogo de equilibrista entre dois mundos (o “real”, que abomina os personagens quase inexpressivos; e o “cinematográfico” que mais do que aceitá-los, os acolhem e os amam incondicionadamente) que o cinema de Aki Kaurismäki é condensado em particularidades próprias, imitáveis, pois em um coração finlandês, toda a emoção visualizada vale o mundo.

É nesse mundo kaurismakiano que o cinema ganha, de forma inevitável, um artista capaz de reproduzir, repetir e galhofá-lo com uma naturalidade estóica, mas que misteriosamente nos convence e afirma de que mais do que emoções explicitadas ao ridículo, mais do que narrativas explosivas e delirantes, o cinema é antes de tudo, imagem. E as imagens do cinema de Kaurismäki existem para autenticar um tipo de cinema gélido, mas ainda sim deliciosamente irresistível.

Ricardo Lessa Filho

Junho de 2010


ISSN 2238-5290