O Grande Dragão Branco (1988, Newt Arnold)

Por um cinema lento, pesado e falho

Na infância todo olho é uma chapa plana, que enxerga planamente. Pelo menos isso parece acontecer em cinema, na sua experiência vívida, no minuto de seu “entendimento” sempre tardio e mortificante. Daí provavelmente ser possível explicar o sucesso que certos filmes fazem nesse período da vida, sucesso aliado ao tamanho do campo a ser olhado e do tamanho da tela na qual se vê tantos movimentos que enganam em sua falsa freneticidade pesada e encenada. Num desses sábados idênticos e mortos, a Globo exibiu, pela enésima vez, O Grande Dragão Branco, de Newt Arnold: um filme plano.

Plano para o olho, perfeito em sua execução enganadora, torpe brincadeira com os corpos em ação de mentira, lenta encenação apropriada, justamente, ao contrário do que se pensa, para os olhos (tão ou mais do que as cenas) lentos das crianças. Se todo olho jovem encerra em si apenas a capacidade de enxergar o que não é profundo (Cidadão Kane, 1941, sairá inevitavelmente derrotado por grande parte das crianças), o filme de Arnold, então, vai viver num universo em que toda a ordem e lógica são invertidas em favor de num novo tipo plano/raso que envolve violência e personalidades sem conflitos outros que não surjam apenas para encorajar a pobre (e verdadeira) dramaturgia, a tentativa de criar um drama aliado à ação e visivelmente obrigado a orbitá-la.

Antes de tudo, trata-se de um veículo de ação, mal coreografado, mal dirigido, mal tudo, onde Jean-Claude Van Damme é um arquétipo sexual que se tornou puro e quase divino, um objeto onde todo o olhar dirigido se torna essencial (grande ironia: é precisamente sem os olhos que seu personagem vencerá o temível Chong Li). É um anjo caído que, através das lições de um mestre japonês (ou seria chinês?) de artes marciais, algo como um pai (o verdadeiro não tem espaço no filme), se recupera e passa a enxergar a vida de outra forma, longe da marginalidade, mais uma vez, infantil, tanto de encenação quanto de verossimilhança dos papéis. Mas não só: ao ultrapassar o caminho da bandidagem plana e rasteira, Frank Dux (o personagem de Van Damme), requisita para si todo o filme. Afinal, como lógica dentro de um funcionamento meio sexual, a única bunda que aparecerá fora de uma luta será a sua e não a da mulher que se envolve com ele. Educação do olhar, instalação de novas ordens no uso da ação lenta e física. Uma bunda resolve um protagonismo e, de alguma maneira, é a responsável pela existência desse texto, porque nela se concentra uma autêntica intimidade do herói – e um olhar publicitário, claro.

Por ser todo feito dessa forma, O Grande Dragão Branco vai se adequar ao peso, ao físico desenrolar quase manual e hidráulico de fatos e pancadas, ao pouco desenvolvido obturador da órbita ocular infantil, transformando-se, ele mesmo, num filme sobre a completa ciência da infância do olhar. Todo movimento, para o olho infantil, é aquele que faz e constitui a dimensão de uma realidade extremamente possível (a aba do boné de Dux, quando criança, é cortada milimetricamente, o perigo é só uma questão estética; o menino de Karatê Kid,1984, aprende de fato a lutar apenas pelos movimentos que executa ao encerar carros, lavar o chão, pintar cercas). Quanto mais lento, mais real é o efeito, porque, não se sabe ainda por estes olhos, é possível identificar a mentira e, com isso, nortear todos os movimentos necessários para criá-la. Daí, o real, daí tudo o que é concebível e necessário para poder mentir.

Nos filmes que vemos hoje no cinema, duas décadas depois, a elidição do corpo físico em troca daquele eletrônico vindo dos CGI’s, cria uma nova constituição da ação, onde o olho é forçado, contra toda a vontade, a não ver nada, ao mesmo tempo em que vemos tudo e não captamos a ação, pois ela é rápida demais – a realidade da violência se transfere para a velocidade da internet, das conexões em geral, os detalhes são o gozo da mentira, o CGI parece nos dizer isso. A experiência fantástica de Speed Racer (2008), dos irmãos Wachowski, por exemplo, é a experiência de uma sensação quase lisérgica, onde o espaço físico é essa sensação mesma, local transmutável, perfeito, anti-lentidão (o que importa é vencer a corrida, e também é claro que se trata de um filme sobre velocidade, e talvez por isso seja tão eficiente), local onde o olho é apenas o receptáculo de um estado sensorial, impalpável, que parece estar ligado demais àqueles flashes de luz que espocam e que são tudo o que a emoção verdadeira pode ser.

O que se apresenta à altura dos dedos, em O Grande Dragão Branco, se configura antes como um esperto aproveitamento da inocência e da fragilidade da visão. Tudo ali está tão próximo porque não passa de uma má encenação e de uma sinceridade audível demais. O toque do tato se dá, então, por tudo o que é falho, visível e lento – voltaremos ao filme, tempos depois, para descobrir que sua necessidade de agradar aos meninos dos anos 80 era a mesma que o levava a “falhar sempre”, hoje. Nessa lentidão, nesse veículo de Van Damme, tudo pode ser tocado (e os malandros dirão que até a bunda dele, naquela já citada cena de pós-sexo com a moça) porque tudo passa lentamente demais pela tela, e porque, sendo visto o filme pela TV, as falhas parecem ser menores, quando, de fato, são gritantes, perfeitas e até, pela repetição, carinhosas. A intimidade com a qual o filme trabalha, sabotando e dizendo sempre que tudo não passa de uma festa de violência “para o bem” (qual o objetivo, no final das contas, para vencer no Comitê?), situação maior, aprendizado para o nada – a não ser, claro, para o olho que vai evoluir com o passar desses vinte anos – é a espécie táctil fundamental para a crença nele.

Muitos anos depois de tê-lo visto pela primeira vez, a lição que se pode tirar de O Grande Dragão Branco é a de que, claramente, o olho que envelhece parece se aproximar mais do que se pensa do olho jovem, aquele que enxerga só o que se move pouco. Que fotografa, mas não analisa, e que acredita muito, excessivamente, na emoção que vem das imagens. Enxerga-se bem melhor, mas o afeto de enxergar mal está lá, sabotando agora o filme, sem no entanto descreditá-lo em momento algum. O Grande Dragão Branco é a diversão da enganação, filme capaz de subjugar os olhos de toda uma vida em favor de sua sinceridade ao se auto-denominar, a cada cena, como um medíocre e incrível filme bom.

Nota: texto originalmente publicado na seção de artigos, novamente editado, com alguns cortes e acréscimos, para fazer parte desse especial

Ranieri Brandão


ISSN 2238-5290