A Coisa (1985, Larry Cohen)

É bem verdade que somente uma forte nostalgia infantil pode justificar qualquer alusão a um filme como The Stuff numa reavaliação das experiências que demarcaram um período pré-cinéfilo da vida. O perfil trash de toda sua duração, demarcado não só pelos ultrapassados efeitos especiais ou pelo constante evocar de situações grotescas, torna-se ainda mais acentuado após algumas décadas – limite do gênero –, dando margem também para considerações típicas deste nicho específico que é o de ‘filmes de zumbi’. É possível que, hoje, o que mais se destaque numa revisão do título (tão bem traduzido por aqui como A Coisa, pelo caráter inominável e quase imaterial que do filme emerge), e de tantos outros com mortos-vivos, seja o exacerbado tom político a respeito de uma sociedade que perde completamente as possibilidades de sobrevivência coletiva, que se autodestrói e, de certa forma, pela natural superfície de um filme, leva o próprio cinema à destruição. Da obsessão retratada de uma população que não consegue parar de comer certa ‘coisa saborosa’ que brota da terra, e que logo passa a comercializá-la industrialmente, escravizando tanto o paladar quanto os espaços da imagem (publicitários, estéticos, marginais), subsiste mais do que uma simples crítica capitalista, já que um dos primeiros ataques de violência no filme é praticado por um cachorro contra o seu próprio dono – daí um impulso do monstruoso que excede os sistemas humanos de organização, pois mais primitivo, anterior à razão. E somente uma inclinação obsessiva maior que a razão para validar a presença de The Stuff na memória. Este cinema que obceca.

Fernando Mendonça


ISSN 2238-5290