A Lagoa Azul (1980, Randal Kleiser)

Se do balé aquático que por vezes se repete em A Lagoa Azul nos vem à memória alguns enquadramentos dos filmes de Maya Deren, nesta referência não reside uma completa gratuidade de temas e encenação. Responsável por iniciar uma didática da sexualidade junto a um público espectador que sempre incluiu pessoas de tenra idade – e daí importa a curiosa autonomia que o filme conquistou nos horários diurnos das TVs –, Randal Kreisler, que já marcara época com Grease (1978), intensifica aqui um estudo dos corpos que talvez tenha se comprometido com os procedimentos clássicos de sua narrativa (como no musical anterior?). Da mesma forma que seus personagens são ‘educados’ dentro de uma cultura da imagem, através das fotografias de famílias e folhetins que sobraram do naufrágio a que sobreviveram, seu próprio filme parece funcionar somente pela pragmática da imitação – de outros cinemas, movimentos e expressões artísticas. O que não implica um necessário desfavor ao resultado final. Para além da grandiloqüente fotografia postal, das polêmicas que rondaram sua nudez, ou da própria fragilidade na progressão histórica e psicológica dos personagens (que em si já não poderiam exceder o aparato de sua coleção de imagens), subsiste um filme de delicadeza quase bíblica, com momentos de extrema harmonia entre os espaços e estes mesmos corpos que vemos aflorar de maneira coreografada e cheia de tonalidades próprias, em alguns momentos à beira de uma concreta experimentação formal. Longe de limitar-se ao caráter excessivamente programático a que se propõe, A Lagoa Azul mantêm guardados alguns segredos que somente um ‘voltar ao filme’ pode elucidar. Como um corpo que não cansa de surpreender em suas transformações, a beleza de um cinema que não teme a morte. Pois não está nela o fim.

Fernando Mendonça


ISSN 2238-5290