Brinquedo Assassino (1988, Tom Holland)

Sempre presente nos pesadelos infantis, Brinquedo Assassino é desses filmes que não se esquece nem com terapia. A trajetória do boneco Chucky, longe de pretender-se recomendável para um público de crianças, concentrava, já em seu primeiro título, um potencial para o horror extremo impossível de ser atenuado. Inserida numa variação de filmes que, desde O Exorcista, relacionaram o mistério da possessão à presença de crianças inocentes, a concepção do roteirista Don Mancini para Chucky não se importou com bons limites para popularizar seu personagem como um dos mais assustadores que o cinema já deu forma. Magia negra, sanguinolência e mortes cruéis abundam nos filmes da série (já contam em cinco), o que reforça o espanto de ser este o referencial de um filme conhecido por tantas crianças de uma geração.

A despeito da qualidade duvidosa dos longas que lhe deram sequência, que só merecem menção até o terceiro, é muito difícil não considerar o filme piloto como um complexo exercício de manipulação do imaginário, seja o infantil ou mesmo cinematográfico. Tom Holland, que já demonstrara conhecer bem alguns dos medos mais desejados do cinema em A Hora do Espanto (1985), conduz no filme de Chucky um competente e equilibrado arsenal de situações que valorizam seu resultado final para além das expectativas que a modesta produção poderia nutrir. Há de se destacar a elegante atmosfera aqui sustentada, pelo menos até a cena em que o boneco se revela vivo para as câmeras, pois em toda esta primeira duração, Holland aproxima sua paleta do giallo italiano, seja por alguns movimentos de câmera, pela iluminação das externas noturnas ou encenação de suas mortes – das quais o primeiro assassinato, com uma mulher despencando de um prédio, é exemplo máximo.

Se há um ponto de ruptura no filme que o leva a uma violenta transformação é porque a própria revelação física do boneco para a imagem, na autonomia de seus movimentos, exigia um vetor de diferença que infelizmente desaparece em todas as continuações. Com a entrada de Chucky em cena, a elegância da atmosfera não é abandonada, mas substituída no referencial que lhe constitui: as últimas cenas no apartamento do menino Andy (Alex Vincent) agora se assemelham há algo de Kubrick e seu O Iluminado. Não bastando as subjetivas do boneco, próximas ao chão como aqueles travellings do mestre ao filmar uma criança em seu triciclo, ainda deve ser considerada a opressora arquitetura no espaço do apartamento, que nas infindáveis correrias de seus personagens lembra o labirinto final do Overlook Hotel.

E como falamos em labirintos, importa mencionar uma sequência-chave da primeira continuação de Brinquedo Assassino, aquela assinada por John Lafia, em 1990. O último ato deste filme, cena mais famosa da franquia, exacerba a repetição do labirinto kubrickiano dentro de uma fábrica onde se produzem, em série, bonecos iguais ao Chucky. A rigor, toda a premissa de Don Mancini se encerra aqui, pois se até então o boneco perseguia seu dono para transferir a alma à criança (alma de um assassino fugitivo que, num ritual satânico, escapara de seu próprio corpo), agora Chucky verá que é muito tarde para retornar à humanidade. Todo o tempo que passou no corpo de plástico aprisionou sua alma de maneira irreversível, trazendo a fraqueza de, enquanto boneco, sangrar e sentir dor. Esta é a ameaça central de Brinquedo Assassino: a corruptibilidade de estar humano. Para Andy, amadurecer além do que sua idade permite, para Chucky, permanecer na condição de mortal. Se este é um filme que ‘pega pesado’ com as crianças é por conscientizá-las cruamente de que a morte é uma possibilidade latente. E não há violência maior.

Fernando Mendonça


ISSN 2238-5290