Edward – Mãos de Tesoura (1990, Tim Burton)

Deste cinema fraturado que Tim Burton vem lapidando em sua carreira, de coerência ímpar, Edward é o filme que talvez chegue mais longe na cristalização da ruptura, da ilusão dilacerada, da consciência que encontra na beleza o núcleo de criação do medo. Ao capturar a essência do mito de Frankestein – de uma forma como nenhuma adaptação confessa o fez – e ampliar nele o potencial imagético de exposição, Burton deu forma ao Maravilhoso como poucas vezes o cinema terá conseguido. Não se ignora o fato de ser o universo imaginário deste diretor um espaço perfeito para a manifestação do onírico, na doçura e morbidez que todo sonho carrega em si pelo simples e irreversível estado de imaterialidade que lhe contorna. Nos filmes de Burton, e Edward é modelo inequívoco, não há lugar para o Impossível (seja da cor, do ângulo ou mesmo do corte básico de montagem), e por isso o caráter fantástico vem tornar-se o lugar padrão de qualquer de suas realizações. Se o inesquecível personagem de Johnny Deep não anseia por um estado de normalidade física prometido por alguns é porque, para ele – e todo o cinema de Burton –, as diretrizes do ser normal não podem ser estabelecidas segundo parâmetros externos; dilui-se a alteridade, a tensão das diferenças, para que entre em cena o domínio da lógica excluída, do que progressivamente se revela uma constituição básica do cinema: o estranhamento do mundo físico. E é justamente esta perspectiva avessa que faz o mundo de Edward ser o mais cinematográfico dos mundos, ser a melhor das lembranças, pelo ilimitado de suas cores e simetrias, daquela mágica nevasca que faz todo o filme passar-se como dentro da bola de cristal que Orson Welles segurava antes de morrer em Cidadão Kane. Porque o cinema ainda insiste em guardar a magia secreta de Rosebud.

Fernando Mendonça


ISSN 2238-5290