Eu Vi o Que Você Fez, Eu Sei Quem Você É (1988, Fred Walton)

A frase que dá título a este telefilme, remake de uma produção homônima do lendário William Castle, acarreta, por sua própria conjugação, uma série de fatores mui caros à função-espectador, elemento básico da condição fílmica. Na prerrogativa voyeur inerente a todos que se aproximam de uma imagem narrativa, estabelece-se um tipo de aderência entre as camadas de sua superfície e o olhar que as apreende; relação curiosamente explorada pelo trabalho desta refilmagem. Não está em jogo a qualidade da encenação, dada a consciência dos recursos disponíveis, mas sim a capacidade que a mesma tem de, pela justa repetição dos fatos – repetição da diegese, por tratar-se de uma refilmagem, e repetição do dispositivo, reprisado incansavelmente pelas TVs – demarcar no (arqui)espectador, para ficarmos numa expressão da psicologia do cinema, uma narrativa de potencial semelhante ao trauma.

Ao brincarem de passar trotes telefônicos numa noite ociosa, as jovens de I Saw What You Did agenciam com a utilização desta mesma frase um risco muito particular ao ponto de partida narrativo do cinema. Ver o que uma pessoa desconhecida fez, ser cúmplice de seus atos é condição preliminar de qualquer projeção fílmica, daí não ser gratuita a genial abertura acrescentada por Fred Walton com um assustador recorte de filmes antigos. Em sua versão da trama, o psicótico Adrian Lancer (Robert Carradine) trabalha como sonoplasta, envolvido ocasionalmente com uma experiência relacionada ao cinema. Sua montagem particular na sonorização dos filmes, considerada insana pelo produtor, abre com uma imagem clássica de Béla Lugosi em Drácula, um dos primeiros frames que agora assistimos neste telefilme. Pela presença da referência, cabe uma consideração sobre o caráter ‘vampiresco’ da imagem, consequentemente, do espectador que a vê. Um e outro, reflexos de alteridades, compactuam deste olhar que furta, que se intromete na vida alheia para sua própria sobrevivência.

Ser culpa do acaso que aquelas jovens inconseqüentes telefonem para Adrian logo após o assassinato cometido por ele contra sua noiva é apenas parte de um jogo maior proporcionado pelo filme, do qual nós, espectadores, somos engrenagem central de funcionamento. Se o suspense encontra terreno aqui é porque o infinito espelhamento dos olhares é construído para além das limitações ficcionais dos personagens: nós vemos que elas não viram aquilo que nós também não deveríamos ter visto, o que nos leva a uma cumplicidade não para com as jovens ou o psicopata, mas com a estrutura primeira da ficção, do enredo que nos inclui como o olhar culpado de sua continuidade.

Sempre me inquietou esta peculiaridade do suspense, de não deixar largar a cena, de obrigar a ver o que aterroriza. Talvez por isso, I Saw What You Did, uma das primeiras referências do gênero a que tive acesso na infância, tenha sido dos filmes mais revisitados nos primeiros anos de minha cinefilia. Uma década depois de seu lançamento nas TVs, o fenômeno que se deu no horror juvenil com filmes como Pânico (o próprio Wes Craven confirmou ter bebido desta fonte, o que fica explícito pela brincadeira com os trotes telefônicos ou mesmo detalhes mais específicos de seu filme – a casa de Sidney, pela arquitetura e localização geográfica é quase uma cópia da casa principal de I Saw…) e Eu Sei o Que Vocês Fizeram no Verão Passado (outro exercício de estilo implicado pelo eterno incidente de ver o crime, enxergar e materializar o proibido), pelas óbvias referências que estes faziam ao telefilme, terminou por sedimentar-se em mim a inusitada constatação de um clássico, e de que o ‘clássico’ pode ser configurado pelos mais diversos meios de legitimação. Eu vi o que este filme fez com o gênero, eu sei o que ele causou em mim, e se o preço a pagar é carregá-lo para sempre na memória, estou condenado.

Fernando Mendonça


ISSN 2238-5290