Gremlins (1984, Joe Dante)

O maior privilégio de quem viveu os primeiros passos da cinefilia nos anos 80 está possivelmente relacionado ao romper da inocência que as gerações precedentes demoraram a provar. Se os filmes daquela década claramente se preocupavam em alimentar uma cultura de referências e citações colhidas na tradição formada pelo século, nesta predisposição estava implícita uma desconstrução dos mesmos códigos, um jogo de ironias que colocava por terra qualquer ingenuidade a ser pretendida pelo público. Ser criança naqueles anos condicionava o aprendizado de um mito para descobrir sua imediata destruição. Nada era estável. E daí que ter nascido junto com Gremlins foi um sintoma de que meu sistema referencial jamais poderia ser adaptado a uma lógica de expectativas fáceis, previsíveis. Nascer com Gremlins, digo, no fatídico ano de 1984, pode ter sido um sinal bastante cruel de que já não me aguardava um mundo de utopias possíveis.

Dispositivo da pós-modernidade, o filme de Joe Dante é dos mais notáveis trabalhos que a Hollywood daquela geração foi capaz de fazer, no que diz respeito ao mirabolante quebra-cabeças de relações interfílmicas provocado quase cena após cena de seu enredo. De Capra a Spielberg, todo um painel de cinemas – especialmente os de cunho familiar – é trazido à tona para a elaboração de um dos contos natalinos mais medonhos que já se ouviu falar. São inúmeras as sequências que fazem de Gremlins um irmão bastardo de A Hora do Pesadelo (também de 1984…) e talvez nunca um filme de apelo infantil tenha avançado tanto no domínio do horror. Equilibrar-se entre os gêneros na maneira como Joe Dante aqui o consegue, foi o melhor caminho para abrir outras prerrogativas que se mostravam urgentes nos contornos daquela época (pós-moderna), ocupando seu trabalho uma posição central no contexto hollywoodiano de então.

Consideremos três cenas específicas que definem o filme em questão pela quebra na estrutura do imaginário por ele abraçado: 1 – O primeiro ataque coletivo dos Gremlins contra a mãe de família que se encontra sozinha preparando a ceia de natal; 2 – O ataque final do último monstrinho, após a quase completa destruição da cidade, dentro de uma loja de conveniências; 3 – O ataque intermediário que os próprios Gremlins sofrem dentro de uma sala de cinema.

Na primeira sequência das acima citadas, há toda uma série de desdobramentos que transformam desde a cozinha em cenário de guerra até a própria data natalina em período de treva e caos. A principal das subversões operadas por Dante, em nenhum momento está melhor representada senão na cena em que Frances Lee McCain é atacada literalmente por uma árvore enfeitada, que traz entre seus galhos, um dos demônios assassinos. A cena, de uma montagem visceral (talvez possível de se relacionar apenas ao ataque sofrido por Tippi Hedren no sótão de Os Pássaros), denota a exata implosão de forças acarretada pelo filme, em seu ímpeto de revirar pelo avesso as imagens de paz e felicidade típicas da infância.

A segunda sequência mencionada, desfecho do pesadelo fílmico, termina por dizimar um espaço que também está associado à segurança, ao menos a de um capitalismo que há muito desfigurou o significado do natal. Ao encerrar seu filme devastando uma espécie de shopping, símbolo máximo do comércio ocidental, Dante dizima a própria destruição, deixando bem clara a moral – pois todo conto natalino carece de uma – que será ironicamente subentendida, de que todo aquele caos fora instaurado pela própria sociedade, pelo descuido com as dádivas da natureza (lembrando que os Gremlins ‘nascem’ de uma primeira criatura encantadora, o pequeno Mogwai). Também é este o espaço responsável pelo último comentário político de Gremlins, que se inicia desde o título, já que o nome dos monstros advém de toda uma mitologia saxã popularizada durante a Seguda Guerra – dizia-se que eram estas as criaturas que derrubavam os aviões da Força Aérea Britânica. O golpe de mestre de Joe Dante consiste justamente em trazer não somente a mitologia reconfigurada para o cinema, mas de colocá-la contra o próprio sistema cinematográfico, no que decorre a lembrança da última cena que evocamos.

Numa sala de cinema que exibe Branca de Neve e Os Sete Anões, os Gremlins se reúnem para uma orgia final. Sua histeria contamina cada metro cúbico daquele espaço, representação suprema do inferno, o qual será realmente tomado pelo fogo, num incêndio que leva os monstros à morte. Se na época esta cena pode ter corrido o risco de passar despercebida, hoje, para uma geração pós Bastardos Inglórios, é muito difícil ignorar o tamanho da provocação aí realizada. Coerente em sua proposta de recortar uma infinidade de referências cinéfilas, Joe Dante não poderia ter solucionado melhor o seu caldeirão de gêneros; na emblemática explosão final vemos materializado o anseio de toda uma escola da criação cinematográfica, que na mesma época, lidava com este aterrorizar das tradições passadas para encontrar o seu lugar no tempo. Quando, antes de queimados, os Gremlins rasgam a tela de projeção – com os precedentes de Godard e Wenders respeitados, estes que um dia também rasgaram o cinema –, eles sedimentam ali a mais profunda metalinguagem do horror, cena nuclear não só de uma década ou gênero, mas de uma vida com o cinema. Também a minha. E daí o perpetuar desta desconfiança. A inquietação que me faz duvidar da imagem inocente. Pois se não for eu a incendiar os mitos que ainda me vendem, quem haverá de ser por mim? O cinema também queima.

Fernando Mendonça


ISSN 2238-5290