Porky’s I, II e III (1982, 1983, Bob Clark; 1985, James Komack)

Impossível imaginar prólogo mais adequado para qualquer dos filmes da trilogia Porky’s que não seja o despertar do jovem Pee Wee (Dan Monahan) e sua incontrolável ereção matinal. É de muito tesão, hormônios e descobertas que estamos falando aqui, não se pode fugir disso. Despertam o protagonista, os corpos juvenis, o desejo que se faz carne e contagia cada cena, diálogo, cada movimento provocado pela equipe de Bob Clark – pois importa muito que sejam os mesmos responsáveis por cada filme e os mesmos rostos neles vistos. A série de desventuras eróticas que recheia esta comédia dos sexos encontra na repetição do falo desperto o ponto de partida ideal para provocações das mais pertinentes em se tratando dos limites que a representação do sexo encontra dentro das artes: no segundo filme, por exemplo, vemos um fervoroso debate sobre o caráter obsceno encontrado da Bíblia à Shakespeare; assim como no terceiro é levantado o cinema europeu (‘de arte’) como um espaço de deliberada pornografia com justificativas intelectuais. Mais do que um besteirol, e sem deixar as ‘besteiras’ de lado, Porky’s conseguiu o feito de retratar dentro de uma geração (dos anos 80) os anseios de outra que em muito lhe era espelho (dos anos 50), resultando num espetáculo que ainda hoje desafia os parâmetros na permissividade do entretenimento adolescente. Considerando tudo que é materializado em termos de corpos nesta trilogia, onde nunca sentimos uma obediência quantitativa às cotas de nudez, e sabendo que tais filmes eram exibidos livremente na TV a despeito de horários, fica a certeza de que um claro retrocesso se deu no correr das décadas: um recuo da moral, da censura, do humor. Se o bom riso de Porky’s resiste e supera a escatologia dos derivados contemporâneos é porque há nele a honestidade do impulso, do que não se controla, por mais que a ameaça exista. Tesão é isso.

Fernando Mendonça


ISSN 2238-5290