Top Gun – Ases Indomáveis (1986, Tony Scott)

Não deixa de ser irônico enxergar num dos cenários de Top Gun um pôster com Clint Eastwood em um de seus memoráveis papéis de cowboy. A presença rústica do ator – que mesmo sendo imagem dentro da imagem se impõe – contrasta com todo um contexto que pode ter sido muito bem vendido lá na década de 80, mas que hoje, para uma geração pós-Tarantino, praticamente perde a razão de ser. Colocada toda aquela virilidade masculina em xeque (pois o que sobra visualmente do filme atesta um exercício inquestionável da imagem gay), o filme de Tony Scott sofreu o desgaste do tempo muito rapidamente, comprovando que seu diretor tinha, desde então, potencial para se tornar um dos piores profissionais de Hollywood (posto que hoje ele ocupa com louvor). Se voltamos a Top Gun é porque, além de ouvir uma boa música, é sempre interessante observar como funciona a indústria, por mais repetitiva que ela seja; o exemplo da boa bilheteria para os anos 80 continua em voga: resumem-se os blockbusters a belos rostos, situações clichê e uma deslavada montagem em prol da ação, romântica e falsificada. E é justamente por hoje termos a consciência de que Tom Cruise viria tornar-se um dos rostos mais emblemáticos do padrão comercial hollywoodiano que compreendemos ser uma imagem como esta acima, também uma alusão que ultrapassa os interesses do personagem e do ator que o encarna; recebemos o gesto não só de Tom, ou de Tony, mas de todo um modo produtivo de cinema que não se importa com o que para sempre ficará marcado na memória. Pois apesar de tudo, e isso é o que me ofende, Top Gun fica.

Fernando Mendonça


ISSN 2238-5290