As Patricinhas de Beverly Hills (1995, Amy Heckerling)

Talvez todo um nicho de mercado possa ser associado a um filme como As patricinhas de Beverly Hills, que foi exaustivamente reprisado durante um bom tempo na Sessão da Tarde. Nicho a priori direcionado a um público feminino infantil ou pré-adolescente, representado, por exemplo, por um desenho animado tão ruim quanto “As três espiãs” – presença certa nos programas infantis da mesma Rede Globo – e por linhas intermináveis de brinquedos, produtos e acessórios: trata-se da apologia a certo consumismo feminino fútil, que é inseparável de uma espécie de alienação radical da vida em sociedade (num sentido mais amplo da palavra) e que se liga ao termo “patricinha”. Quem faz essa associação de uma forma tão rápida precisa ver mais de perto o longa-metragem de Amy Heckerling.

O filme, uma espécie de comentário sobre os high-school teenagers ricos da Califórnia dos anos 90, é tudo menos uma apologia. Não há uma única cena onde a estrutura narrativa não mantenha uma espécie de distância paródica daquilo que está sendo narrado. “O amor estava no ar”, narra Cher, a heroína, interpretada por Alicia Silverstone (que depois do sucesso estrondoso do filme experimentou o declínio na carreira de qualquer um que ouse por um momento se plasmar num ícone da cultura de massa), logo depois de ter conseguido fazer com que Elthon ficasse com sua amiga Tai numa festa. A frase mal acaba e vemos um plano geral da festa, com bêbados caindo pelo caminho e vomitando numa piscina cheia de jovens. Assim é a diegese do filme: qualquer ato que se pretenda glorioso é imediatamente diminuído e confrontado com qualquer tipo de imperfeição profunda que ronda o mundo. Na carona de volta para casa, Cher descobre que na verdade Elthon estava interessado nela própria (nunca gostara de Tai, que pertence a uma classe social inferior) e ainda é assaltada: “este vestido é de um designer totalmente importante”, explica Cher, com uma de suas gírias, ao ladrão que ordena que ela deite no chão. “E eu dou um tiro totalmente na sua cabeça”.

A própria Cher é uma protagonista curiosa, já que o filme reitera o tempo inteiro sua futilidade, alienação e conhecimentos limitados. Christian pergunta: “você gosta de Billie Holiday?”. E ela: “I love him!”. Todas essas características do filme parecem ser esquecidas na imagem que o pensamento automaticamente pode fazer dele ao associá-lo ao nicho de mercado das patricinhas. Esquece-se também a própria trilha sonora do filme – uma seleção de incrível – que dá outro tom ao que está sendo narrado. O título nacional parece fazer parte desse jogo, ocultando o original Clueless, que significa “sem pista”, “sem noção”, “perdido”, indicando a situação sine qua non dos personagens que povoam o longa. Ver o filme mais de perto significa tentar entender que tipo de discurso essas características desconcertantes engendram, dentro do reinado da ironia que parece ter ficado para trás na cultura norte-americana, cada vez mais sisuda e séria no que diz respeito a seus mitos.

Obviamente, porém, o sucesso de Clueless em vários estratos da cultura midiática só pode ser explicado quando se percebe que esse aspecto da ironia, do distanciamento e da crítica anda junto com um paradoxal interesse afetivo pelo que a narrativa precisa dar conta. A ironia, assim, não corrói o carinho verdadeiro que não obstante o filme sente por Cher e seus colegas. Trata-se do contraditório sentimento da fruição camp. Mas, qual o interesse que Heckerling pode ter por esses personagens se é apenas com a segurança do distanciamento crítico que ela consegue falar sobre eles?

Durante uma aula, Cher dá sua opinião no debate sobre a tolerância a imigrantes nos Estados Unidos: “Foi como a festa de 50 anos do papai. Muitas pessoas apareceram sem responder o convite. Então tivemos que correr para a cozinha, reorganizar e dividir tudo de novo. Mas acabou dando certo e a festa foi mais legal com mais pessoas. É o mesmo conosco aqui nos Estados Unidos: e se corrêssemos para a cozinha pra reorganizar tudo? E, que eu saiba, a Estátua da Liberdade não exige convites”. A fala é ridicularizada por uma rival: “nesse debate ela vem falar de uma festinha qualquer?”. Mas é exatamente nesse absurdo que Amy Heckerling enxerga o brilho desse universo fútil. A alienação de Cher é tal que ela estende suas próprias possibilidades de garota rica para todo o mundo. A crítica a esse tipo de atitude não deixa de sublinhar quão absurdo é o fato de um pensamento igualitário da comunidade poder surgir apenas no seio da alienação mais profunda. É o ruído que Cher causa ao, por exemplo, enviar caviar e equipamentos de esqui para os desabrigados num desastre ecológico que interessa a Clueless. Por que enviar apenas mantimentos básicos para essas pessoas? Em que elas são diferentes de “nós”?

Em entrevista sobre o filme, Heckerling afirma que procurou, através de tantas camadas de ironia, detectar essa espécie de sonho impossível que é apenas entrevisto no projeto radical de estender a possibilidade da frivolidade a todos: “uma garota como Cher ter uma melhor amiga negra (Dionne)? Era algo muito improvável no contexto real em cujas potencialidades no entanto o filme se constrói”. As patricinhas de Beverly Hills é uma comédia melancólica por isso. Se no início da trama, Cher quer ajudar Tai a ser popular no colégio e diz: “That girl is totally clueless!” ao final, uma espécie de choque do real faz Cher conhecer os limites de certo sonho, o sonho de que todos possam fazer parte do que mais importa, o prazer da imagem: “What was happening? I was totally clueless!”. Por tudo isso, Clueless permanece sendo uma das melhores comédias românticas de todos os tempos (principalmente comparado ao conservadorismo de muitos dos exemplares mais contemporâneos desse gênero) e, em plena sessão da tarde, uma pérola inusitada quando olhada mais de perto.

André Antônio


ISSN 2238-5290