Batman & Robin (1997, Joel Schumacher)

Depois de praticamente sete anos sem nenhum filme do Batman, Christopher Nolan é o responsável por – seguindo a onda contemporânea de sucesso de filmes de super-herói – reiniciar a série exatamente do jeito que os fãs sempre quiseram, como parecem indicar os números das bilheterias. É interessante ver que diferença abissal há entre Batman beggins, de 2005 (e os outros dois dirigidos por Nolan) e seus antecessores, sobretudo o maldito Batman & Robin (1997).

Nos extras do próprio DVD lançado pela Warner, Joel Schumacher pede publicamente desculpas por Batman & Robin, falando que não era sua intenção decepcionar ninguém (http://www.youtube.com/watch?v=A65R9EfCco4&feature=related). Esse episódio quase inacreditável aponta para a rejeição violenta que o filme teve na época do lançamento, fazendo com que a Warner (prejudicada financeiramente) cancelasse o próximo filme da série, que já tinha até título (Batman Triumphant) e sinopse. A negatividade desse fim vergonhoso parece ter reencontrado seu completo oposto nos elogios que o público emplacou ao novo começo encabeçado por Nolan. Olhemos de perto as diferenças entre os filmes.

É sabido que alguns atores de Batman & Robin relataram que Schumacher, no set, antes de dizer “ação”, gritava a todos: “lembrem-se, isto é apenas um desenho animado”. Chris O’Donnel (Robin) fala que em Batman eternamente (1995) sentia que havia um projeto sério de atuação, mas que em seu sucessor parecia que estavam filmando um comercial de brinquedos. Todos esses depoimentos, ditos em tom de desculpa e reprovação, parecem não atentar para o seguinte: o não-sério também pode se constituir enquanto projeto. Estabelecer uma mise-en-scène onde os corpos são pura imagem, puro simulacro superficial, puro jogo de luzes; uma diegese sem os limites verossímeis do mundo material “normal” e onde nenhum exagero colorido foi longe o bastante é algo para o qual o público-alvo de Batman & Robin talvez não estivesse preparado. Schumacher diz que queria sua Gotham City como vista por alguém que tivesse tomado ácido.

À primeira vista parece não haver nada em comum entre os Batmans de Schumacher e os dois primeiros de Tim Burton. Mas algo forte os une: a estética da máscara. Em Burton os personagens são doentes que levam seu pathos de crueldade ao extremo através das máscaras e das fantasias (lembrar da fala incrível do Pinguim para o Batman: “você tem inveja porque eu sou uma aberração de verdade e você precisa usar máscara”). O mais interessante dos Batmans de Burton é que ao longo dos filmes a distinção heróis-vilões não faz mais sentido: todos são criminosos insanos. Parece que Schumacher leva essa estética da máscara o paradoxo, como numa rave de carnaval.

Em Batman & Robin a distinção entre heróis e vilões é extremamente clara. Talvez seja a única coisa que ele compartilhe com os filmes de Nolan. A diferença é que, no primeiro, o espectador sabe o tempo todo que o maniqueísmo bom versus mal é apenas uma piada, um roteiro, uma referencia camp, logo crítica, a toda uma herança de imagens pop norte-americanas. Batman & Robin é assumidamente apaixonado pelo prazer do kitsch. Os filmes de Nolan aspiram à sutileza careta do bom gostismo. Todo a sedução do coringa de Nolan vem de sua tragédia inadiável. A loucura do personagem é tal que ele põe fogo numa pilha de dinheiro. Por mais ambígua que essa cena seja, a ambiguidade se resolve no projeto em geral dos filmes: serem entretenimento “sério” para toda a família. Com os vilões – detalhe importante – cada vez mais parecidos com terroristas. Mas nada de cenas violentas demais como o Batman gótico queimando um capanga vivo em Batman, o retorno (1992). Nada de ironia quanto à herança dos super-heróis. Os estados Unidos precisam deles mais do que nunca; eles têm que ser levados a sério.

Um PS: Anne Hathaway nunca, nunca vai ser Michelle Pfeiffer.

André Antônio


ISSN 2238-5290