Christine – O Carro Assassino (1983, John Carpenter)

A história do cinemascope mostra que sua tela larga tem o talento de captar (sentimentos de) comunidades. Ora, Christine – filmado nessa janela, a preferida de Carpenter – não é a história sobre um certo tipo de comunidade? Quando vemos Arnie acuado pelos valentões da escola na oficina logo entendemos o cerne da mise-en-scène em jogo no filme: Carpenter aqui – e sempre – está interessado por como certa violência perpassa essa comunidade brilhante apenas nas aparências (aqui a norte-americana, epitomada pela fórmula do high school). Mas, ao invés de opor Arnie, como herói puro, aos valentões, Carpenter nos mostra como o nerd pode ficar pior que eles, através de Christine: o belo carro vermelho da década de 50 que Arnie restaura e por causa do qual muda completamente de personalidade. Christine vem do passado (o uso das canções de rock da época que tocam no rádio do carro é genial). Carpenter sempre mostra que esse mal é muito antigo, embora não possamos determinar exatamente uma época para sua origem. O Mal em Carpenter – vide as criaturas de The thing, In the mouth of madness ou Michael Meyers (Halloween), por exemplo – vem sempre de muito longe no tempo e não vai acabar tão fácil: nunca acaba com o final das narrativas, que sempre mostra como o herói apenas varre a sujeira para debaixo do tapete (no caso de Christine, a frase final de Leigh: “Deus, odeio rock’n'roll”). Arnie se transforma num assassino, e o espectador sente o sabor de sua vingança. Christine, vermelha e incendiada na estrada escura à noite, é uma das mais belas imagens da violência rock’n'roll que dificilmente se verá em algum videoclipe com o peso que vemos aqui. Christine e Carrie (de De Palma) são filmes irmãos. Ambos originados em histórias de Stephen King (junto com O iluminado possivelmente as melhores adaptações dele para o cinema, a despeito do que o próprio autor diga), eles mostram como o mal que gostamos, através de nossas narrativas ingênuas, de ver no outro. está assustadoramente enraizado… em nós mesmos. Bad to the bone.

André Antônio


ISSN 2238-5290