A Família Addams I e II (1991 e 1993, Barry Sonnenfeld)

A família Addams já foi histórias em quadrinhos e desenho animado. Mas há algo bastante especial nos dois longas filmados sobre esses personagens nos anos 1990. Trata-se do equilíbrio. De várias formas a família Addams sempre foi uma maneira de fazer o espectador tomar alguma distância crítica dos ideais kitsch da sociedade mainstream norte-americana. Pela primeira vez em muito tempo, na cultura de massa, a elegância e o gótico não são o fator esquisito secundário, o outro, mas o fator esquisito principal, o que importa, aquilo com o qual temos de fato algo a aprender. Os dois filmes – 1991 e 1993 – tiveram o êxito de trazer todo o absurdo cartunesco da família para uma espécie de realismo que tem todo o sabor de como – sobretudo, claro, com Tim Burton – o gótico foi explorado pelo cinema popular dos anos 90. O resultado é uma aceitação ampla, em termos de público, de valores de outro modo terminantemente exteriores à sensibilidade midiática hegemônica. O segundo filme talvez chame ainda mais atenção para isso (ver o título: Addams Family values). Ele é uma espécie de melhora do primeiro, sobretudo em termos de atuação. No acampamento, apenas frequentado por crianças ricas e para o qual Wednesday e Pugsley são mandados, há uma construção quase fascista de um mundo sensível que torna invisíveis os “diferentes” – os não-fofos, não-brancos, não-loiros, não-saudáveis, não-Disney… Mas no grand finale da peça infantil de ação de graças, Pocahontas e sua tribo se revoltam contra os invasores brancos e um verdadeiro sentimento de vingança – notável e um pouco assustador numa típica “sessão da tarde” – vem à tona: é hora da desforra. E o espectador fica com a elegância subversiva de Angelica Houston falando com a nova esposa do Tio Fester em sua nova e brilhante mansão: “Debbie, você transformou meu cunhado numa pessoa desprezível e detestável e arruinou minha família; tudo isso eu posso perdoar… mas”; “mas o quê?”, pergunta Debbie impaciente. “Tons pasteis?” E quem tem coragem de confrontar a direção de arte e o figurino deslumbrantes desses Addams noventistas?

André Antônio


ISSN 2238-5290