Aracnofobia (1990, Frank Marshall)

“A memória e seus ossos, a torpe lucidez, minha viagem através dos retratos, eu e meu rei trocando segredos, ressonando espaço-viuvez, e a cólera de saber que tudo me possui e ao mesmo tempo nada, que nada em mim é permanência, e tudo é permanência, vínculo, tudo é tangente, tudo está colado a mim”.

Hilda Hilst, Pequenos discursos e um grande

Sempre que tentamos resgatar nossas lembranças mais antigas entre o mofo e o abandono, quando decidimos pelos primeiros acontecimentos que incorporamos como experiência de vida, entramos no terreno profundo do rememorar enquanto processo de torção e distorção de fagulhas benjaminianas, escavando um espaço mnemônico que alinha num mesmo plano um naturalismo reconquistado e uma fantasia exagerada. Nesse sentido, uma das encruzilhadas infantis que melhor perduraram em minha memória, entre uma sessão da tarde e uma ronda noturna, se baseia no princípio de que as aranhas nunca simpatizaram comigo. Quando era pequeno, entre os sete e oito anos, estava brincando em casa, numa espécie de quintal lateral longuíssimo, mas cuja largura não passa de um metro e meio de distância entre a nossa janela e o muro da vizinha. De repente, resolvi dar um susto na “menina” passando roupa lá trás, mas não demorou muito até ela me notar, só que ao invés do típico “menino, deixa de ser besta, estou te vendo”, soltou um abismado “Rodrigo, o que é isso atrás de você?”. Havia um horror singular em sua voz e em seu rosto e quando me virei meio sorrindo, um tanto traquino, estava face-to-face com maior aranha que já vi na vida. Na lembrança que hoje já foi submetida a altas doses de ficção, aparece inclusive aquele mar de olhos horrorosos em superclose tal qual em Aracnofobia. Se não bastasse, desde então, secretamente roubei uma lembrança do médico, interpretado pelo Jeff Daniels, e passei muito tempo contando, como para justificar meu trauma, que antes mesmo deste episódio, havia existido outro, quando eu tinha apenas dois anos: uma aranha havia subido em meu berço, andado pela minha perna, mesmo sendo muito pequeno para lembrar, contava que podia reviver a sensação de paralisia completa, até que ela passou pela minha barriga com aquelas oito patas repugnantes e, enfim, alcançou o meu rosto. Pois é, o histórico da minha fobia – que continua firme e forte até hoje – se confunde com as próprias imagens do filme dirigido por Frank Marshall.

De qualquer forma, voltando ao acontecimento, a sequência foi de uma completa histeria familiar: eu saí correndo gritando pela minha mãe, a menina se trancou no quarto, minha irmã olhou e se trancou no dela; minha mãe fez a mesma coisa, mas ao entrar em seu recinto, não por acaso me viu acompanhando tudo pela janela com o ar condicionado ligado. Não lembro bem do meu pai, devia estar viajando, sei lá, mas se tem uma coisa, batata, que assusta uma criança é o absoluto medo estampado no rosto de seus pais. Nossa esperança era o meu irmão mais velho: surfista, metido a machão, ficou um tanto receoso ao ver o tamanho da aranha, ainda assim pegou uma vassoura, amarrou no cabo de um rodo velho e da janela do quarto dele que fica no primeiro andar, ou seja, uma distância considerável, deu uma porrada na maldita. Ela pulou – minha espinha congela só de pensar no pulo de uma aranha e Aracnofobia está inundado deles – e saiu do nosso campo de visão, despertando pânico em todos que assistiam a cena por suas janelas. O remendo soltou, a vassoura caiu e o meu irmão fechou a janela do quarto dele e também ligou o ar condicionado. Foi nessa situação, com toda minha família trancafiada, que surgiu a minha fobia irreversível por aranhas, algo que até já tentei remediar com contatos graduais e abastecendo-me de informações, procedimentos sem sucesso algum. A história terminou com a minha mãe telefonando para a vizinha que adora bicho, uma vez ela chegou em casa trazendo um cavalo branco que encontrou sozinho no meio da rua, para matar, tanger, dar um jeito na situação, “afinal a culpa era dela por ter um pé de carambola em casa” (?). Ela matou, mas antes vimos a aranha dando vários pulos, soltando as pernas como forma de defesa, mesmo dentro do quarto comecei a alimentar o receio de que alguma coisa poderia estar ali comigo, embaixo da cama, dentro de um sapato, atrás de um jarro, passeando na cortina, é como se todas as cenas de suspense de Aracnofobia tivessem sido introjetadas automaticamente no meu imaginário.

Corta.

Segunda história: anos depois, final da adolescência, estava num sítio em Bezerros (cidade antes de Caruaru), com alguns amigos. Basicamente iríamos passar o dia bebendo, contando vantagens e tomando banho de açude. Logo quando chegamos, passamos numa cabana abandonada, onde o caseiro costumava guardar todas as tralhas e enquanto meus amigos exploravam o lugar, fiquei na porta só olhando. Confesso que em Aracnofobia existe um discurso sobre o campo, o interior enquanto espaço perigoso, algo que assume até um tom urbanóide estúpido, como na cena final em que Jeff Daniels, já são e salvo em São Francisco, fala para a mulher: “Sabe do que mais vou sentir falta do interior?”. Ela pergunta: “O que?” Ele responde: “Não sei, por isso perguntei”. Ela completa: “Pelos menos saímos vivos”. Certamente há um preconceito forte aí, mas é preciso deixar claro que a fobia de aranhas determina a forma como a pessoa entra e se porta em determinados ambientes fechados, coloca-a em vigília permanente quando está num lugar isolado, com mais risco delas aparecerem. Ou seja, não é diegeticamente tão absurdo assim. Nessa época, entre os dezesseis e dezessete, a maioria dos meus amigos já sabia do meu medo irracional, alguns já tinham ouvido que meu temor infantil supremo era acordar morto dissecado com uma aranha saindo da minha boca, outra imagem do filme, mas decerto ninguém tinha presenciado diretamente um ataque de pânico. Também fiquei na porta porque sou desses que odeiam todos os insetos, aracnídeos e derivados; desses que matam até borboletas quando ninguém está olhando, e simplesmente queria evitar qualquer atitude exagerada. Eles encontraram uma jangada e a carregamos até o açude. Meia hora depois, todo mundo nadando, resolvo deitar na embarcação sozinho para pegar um sol. Daí fico lá virando e revirando, quando de repente sinto alguma coisa no meu peito. Pois é, mais uma vez face-to-face com uma aranha e se tem um detalhe que torna Aracnofobia amplamente mais assustador que filmes que apostam em aranhas gigantes, como Malditas Aranhas, é justamente o fato delas serem do tamanho das aranhas do mundo, de em sua pequeneza e proximidade com nosso rosto esconderem um perigo atroz.

Além disso, não foram utilizadas aranhas de mentira, as pequenas vieram da Nova Zelândia, dizem que são inofensivas apesar da agressividade, já a tarântula gerou alguns problemas por sua mordida dolorosa, até usaram um pequeno protótipo em algumas cenas, mas ambas as espécies foram manipuladas pelo entomologista Steven Kutcher, que tem no seu currículo vários filmes como “coordenador de insetos”. Desculpa a profissão, mas só consigo pensar no diálogo entre o fotógrafo e o cientista no começo do filme: – Qual a sua especialidade? – Viajo o mundo cartografando a existência de novas espécies de insetos. – Você não acha que o mundo já tem insetos o bastante?. Na lembrança mais uma vez mergulhada na ficção, a aranha no meu peito dava dois passos em direção ao meu rosto, como quem se prepara para atacar, só que consegui ser mais rápido, dei um tapa nela e pulei da jangada. Aliás, se tem algo que me transtorna na aranha é sua forma de se locomover e suas patas: dois membros, ok; quatro membros, ok; a partir de seis já começa a virar bagunça, oito é certeza de desespero. Na sequência saí nadando sem parar até a borda do açude, que nunca foi tão grande, pisei nas margens me coçando, batendo-me, igualzinho ao Jeff Daniels, como se o simples toque aracnídeo fosse capaz de fazer brotar filhotes de dentro do meu corpo, como se eu estivesse definitivamente marcado pelo cheiro, como se elas pudessem voltar a qualquer momento e já soubessem quem deveriam matar. Toda folha levada pelo vento era motivo de escândalo, passei cerca de meia hora transtornado até entrar na água para me sentir mais seguro. Depois, mostraram-me a aranha morta, comentaram que ela já estava seca desde o início, ficaram me obrigando a ver a peçonhenta como terapia – idêntico a como a mulher tenta fazer com o marido e óbvio que não funciona – especialmente porque as pessoas não entendem que o medo que está em jogo na fobia é irracional, envolve um respeito árido, o mesmo naturalismo reconquistado junto a fantasia exagerada ao qual me referi lá em cima. Você tem um dado real que é a existência do bicho, mas começa a acreditar em coisas absurdas num contexto de perigo conscientemente desporporcional: daí é um passo para começar a falar que a aranha tá se fingindo de morta, que é o bicho mais perigoso da terra e é justamente ciente dessa dimensão que o filme Aracnofobia fundamenta sua atmosfera de thriller.

Corta.

Terceira e última história: estou na casa de um amigo na praia de Ponta de Pedra, com um monte de estudantes do curso de Biologia, desses que ficam andando e falando o nome científico de cada planta, inseto e o raio que os parta que se mova. Daí em algum começo de noite, todos foram para a praia e eu fiquei com mais quatro pessoas dentro da casa, duas biólogas e dois namorados de quaisquer outros campos de conhecimento. Claro que tratando-se da temática em questão não demorou muito até eu notar a presença de uma aranha enorme num canto escondido. Soltei o grito, os quatro correram para a sala, um dos namorados olhou, esbugalhou os olhos, e se trancou no banheiro enquanto o outro arrumou uma distância segura e passou a observar tudo da cozinha. As duas biólogas, por sua vez, ficaram ao meu lado sugerindo deixar a aranha lá, “que se não mexêssemos nela, ela não iria nos incomodar”. Dizem que as razões históricas da aracnofobia, que confirmaria o fato de ser um temor mais ligado à cultura ocidental que oriental, provém de um surto chamado tarantismo que se alastrou pela Europa entre os séculos XV e XVII, cuja culpa foi atribuída a uma espécie de aranha e a cura só era possível com sessões de quatro horas ininterruptas de dança (semelhante ao transe de quando nós, aracnofóbicos, somos tocados pela aranha). Seja como for, mais uma vez, comecei meu transtorno de ansiedade ou transtorno de pânico que só se manifesta em uma situação particular, gritando que era uma questão de ela ou nós, que se deixássemos a aranha viva, certamente iríamos acordar mortos. Além de que nunca no mundo que conseguiria dormir numa casa sabendo que uma caranguejeira sedenta por sangue estava caminhando sobre as telhas ou sob os lençóis. Já que ninguém quis tomar a atitude, peguei uma vassoura e tentei acertá-la. A aranha pulou, caminhou daquela maneira asquerosa de caminhar, as duas garotas logo sumiram, eu fiquei louco, bem caçador em busca de sua presa até que a maldita se escondeu atrás da mesa de ping pong encostada na parede. Eu só conseguia manter a certeza que seria capaz de conseguir atingir meu objetivo por lembrar que o Jeff Daniels também conseguira matar a aranha no final, ainda que tenha precisado bater, tocar fogo e atirar para ela finalmente morrer. Eu só tinha uma vassoura e seguiria adiante.

Foi desse duelo que nasceu um dos maiores dilemas dos meus dias: a aranha estava num ponto que não conseguia alcançar com a vassoura e se eu fosse arrastar a mesa de ping pong teria que soltar a minha arma, ou seja, ficar completamente vulnerável. Sobe som Ennio Morricone e confesso que sou desses que por conta do filme, deixou de temer as imagens das aranhas nas telas, criando em meio a espasmos incontroláveis um certo fascínio seguro saciado através de vídeos no youtube. Só que diante de uma viva, a dimensão era outra: tentei empurrar a mesa com uma mão enquanto ficava com a vassoura na outra, a aranha correu para cima de mim, eu soltei a mesa, nem lembro se caiu de um lado ou do outro, mas, finalmente, consegui dar o golpe fatal na minha inimiga. Claro que não só um, dei vários, mesmo vendo ela morta, continuava a bater só para não ter chance alguma dela voltar. Mineirinho, treze tiros. Prontifiquei-me de arrumar uma pá, levei o cadáver para fora no intuito de tocar fogo nele, como não consegui arrumar álcool, decidi que ia jogar bem longe, havia algo dentro de mim temendo que surgissem outras clamando por vingança. Foi durante esse acesso de loucura, contam que a loucura é a forma mais forte de sofrimento, que chegou a horda de biólogos, em dois segundos virei o judas recriminado, “a pobre da aranha era um espécime raro”, “você devia ter tangido para longe”, “blá blá blá, blá blá blá”. Meus argumentos eram tão absurdos que tenho certa vergonha de lembrar, especialmente porque era no nível “não podia deixá-la viver, ela já tinha marcado a minha cara”. Portanto, sinto que não preciso falar muito mais sobre o filme em si, até reassisti a produção para escrever esse texto e é isso, o desespero continua, não temos aqui uma crítica, um ensaio, uma crônica, e sim, um relato terapêutico. Enquanto isso, os frames continuam se confundindo com as lembranças, os ímpetos absolutamente irracionais ganham linhas de racionalização e a única parte boa de todo esse percurso é que, pelo bem ou pelo mal, ainda sou capaz de experimentar até hoje a mesma dimensão do medo que costumamos deixar para trás, mofado, escondido ou abandonado embaixo de algum travesseiro infantil.

Rodrigo Almeida


ISSN 2238-5290