Férias Frustradas (1983, Harold Ramis)

Família andante

Em minha memória o “family-comedy” oitentista sempre foi uma das coisas mais divertidas que se poderia achar na televisão brasileira durante a década de 1990, quando se é uma criança “presa” à sala de estar da casa dos pais, porque de algum modo aquela família peculiar americana seria (com suas aventuras e situações surreais) a verdadeira infância, só possível na (ir)realidade cinematográfica. Então o ponto de contato e de aproximação com Férias Frustradas sempre se elevou no extremo dessa necessidade infantil de que, por mais que absurda fosse essa aventura, ela (a própria aventura e também a família em si) sempre acabaria bem, nos happy endings mais justificáveis aos olhos de seu espectador mais inocente: a da alegria desses personagens que, depois de tantos sufocos narrativos, encontra sempre ao final o estado de bondade de espírito ilibado, tanto da narrativa em que eles foram inseridos quanto dos espectadores que a assistiram.

Férias Frustradas, longe de causar o mesmo fascínio hoje que causara em minha infância, faz parte dessa inerente essência do cinema jovem oitentista dos Estados Unidos (e de John Hughes, roteirista do filme): seus personagens (acríticos?), pareciam se importar com certa dimensão familiar, com certo núcleo de intra-relações que o excesso de informações dos dias de hoje parecem ter levado à falha de compreensão delas. As sensações de hoje são derivadas da tecnologia, do distanciamento do corpo. À época do filme de Harold Ramis as relações só podiam florescer através do contato físico humano. No terceiro e melhor filme da quadrilogia, Férias Frustradas de Natal (National Lampoon’s Christmas Vacation, 1989), de Jeremiah S.Chechik, existe um acontecimento só possível em uma época onde a tecnologia não ultrapassava os limites do lar: a família de Clark Griswold (Chevy Chase), longe de qualquer acessório de monitoramento global se perde durante a viagem trazendo à tona (pelo menos é o que o filme deixa transparecer) essa espécie de “humanização” das viagens familiares daquela época esquecidas pelos GPS acoplados de fábrica dos carros atuais – e o GPS é um sistema excepcional, não me entendam mal, mas que, na visão do filme, a falta dele parece de algum modo tornar tudo mais “real” no momento em que se torna menos tecnológico.

É por muitas vezes demasiado besta, bobo, mas Férias Frustradas como vestígio de memória infantil se torna novamente emocionante quando aderindo aos aspectos falhos do filme, o espectador não o renega, mas pelo contrário, o aceita e aproveita até o último momento aqueles outros momentos de diversão infantil.

Ricardo Lessa Filho


ISSN 2238-5290