La Bamba (1987, Luis Valdez)

Aquela eternamente jovem noção do melodrama

Rever depois de tantos anos um filme como La Bamba suscita uma certa noção de mudança profunda que o tempo trouxe (mas não necessariamente um avanço, uma marcha para frente) dentro dos artifícios cinematográficos; especialmente aqui, das cinebiografias feitas por Hollywood em uma época em que o próprio cinema – ainda – desconhecia as qualificações simplistas que caracterizariam praticamente toda a geração de 1980. La Bamba situa-se entre o inferno do convencionalismo melodramático e o paraíso dos recém descobertos signos do rock’n roll, sob a tutela do fenomenal Ritchie Valens (Lou Diamond Phillips), que ao lado de Buddy Holly foram dois dos primeiros meteoros desse novo estilo musical.

A dupla intensidade do conflito latino – num primeiro nível, enquanto imigrantes, aceitar sua condição “forasteira” de espaço e cultura; no segundo nível, já estabilizados nessa nova terra, absorver a cultura americana, mas sem esquecer a história de seu povo – gera a força de uma multidão para Ritchie, que faz de sua guitarra um material intrínseco ao seu corpo, expansão corporal que dialoga com algo ainda mais profundo – o diálogo com o próprio sonho humano. Não somente no sentido da realização do sonho profissional, mas na própria discussão do sonho-profecia, afinal, Ritchie Valens, segundo o filme, sonhou diversas vezes com o momento de sua própria morte por um acidente aéreo – temor que de fato tornou-se realidade, já que o avião em que estava Ritchie e Buddy Holly caiu deixando o rock para sempre órfão de dois fenômenos únicos. A vida de Ritchie foi tão meteórica e grandiosa que a ele foi concedido duplamente à possibilidade de transformar em realidade não somente um sonho, mas dois: um absolutamente extasiante que foi o sucesso musical, o outro, irreversivelmente terrível que foi a sua própria morte.

A inserção do melodrama como chave narrativa em La Bamba legitima aquela noção de eterna juventude de seu protagonista – um literalmente eterno jovem, cuja vida foi interrompida aos dezessete anos de idade –, mas também expõe alguns pontos cruciais que faz resplandecer no filme o melodrama de aura latina (e por mais que Ritchie tivesse nascido nos E.U.A, seus traços, seu nome, sua genética, sua ontologia eram mexicanas): seja na imensa dificuldade que o imigrante tem em se adaptar à cidade grande (esse arquétipo refletido no irmão mais velho de Ritchie, Bob – Esai Morales -, talentoso cartunista, mas cuja condição social desprivilegiada e o sucesso de seu irmão mais novo o frustra de tal modo que é no álcool que ele tenta encontrar o escapismo), seja na constatação e a mútua rejeição dos moradores “brancos” da cidade grande quando se deparam com esses “novos seres” que parecem trazer “novas doenças”, o que me remeteu a inesquecível frase do personagem de Jardel Filho em Floradas na Serra (1954), de Luciano Salce: “ Os pobres, quando são doentes e adultos, deveriam morrer”.

Doença, morrer, essas longínquas raízes operísticas do melodrama latino estão devidamente codificadas em La Bamba, que se utiliza da mulher pela qual o protagonista é apaixonado para executar outro dispositivo caríssimo às lágrimas latinas: Donna (é o nome da mulher amada de Ritchie que a eternizou com uma música homônima), interpretada por Danielle von Zerneck, funciona nesse universo mítico como a realização desse amor cortesão e romântico, sem contradições e com promessas de felicidade eterna. É um protótipo que une a fragilidade com a periculosidade, pois o fato de o protagonista estar apaixonado por ela torna-a problemática porque para conquistá-la precisa mudar algo – não somente a condição social, pois Donna é loira e rica, mas também para o pai dela, Ritchie parece precisar modificar a sua própria ontologia, um desejo impossível. Mas é dessa relação que surge uma das cenas mais soberbas de todo o filme, quando Ritchie já gozando de algum sucesso comercial, diz que ama Donna, o momento se baseia naquela junção única entre os close-ups dos personagens e a luz, com recortes contrastados, acentua a sugestão do plano (montagem) e dos personagens, evitando qualquer leitura desinteressada daquele momento, e assim, sublimando todo o sentido daquele amor.

La Bamba é daquele certo tipo de cinema que parece buscar colossalmente a emoção da pele (daqueles latinos vitoriosos em uma outra terra) e da sensação do olhar (das lágrimas abundantes; da emoção dos primeiros signos de um novo tipo de música) que não desloca nunca de sua premissa mais profunda que é unificar pelo cinema de personificação latina aquela eternamente jovem noção do melodrama: a das lágrimas como único modo de redenção – para morte e também para a própria vida.

Ricardo Lessa Filho


ISSN 2238-5290