Deu a Louca nos Monstros (1987, Fred Dekker)

Uma questão etária

Se Deu a Louca nos Monstros tivesse estreado nos cinemas nos dias de hoje talvez os monstros que os jovens protagonistas do filme enfrentariam fossem Jason, Freddy Krueger, Michael Myers e Ghostface. Foi a década de 1980 (época do auge do cinema da juventude em Hollywood, que abraçava toda a família) que também possibilitava algo improvável no cinema de hoje: a extrapolação das classificações etárias meramente publicadas para de alguma maneira retalhar a imagem ali projetada, fazendo então que as crianças daquele período pudessem realmente aproveitar tudo o que o cinema fantástico (ainda que claramente adaptado ao universo infantil) tem a oferecer.

Essa “oferenda”, aliás, engrenagem propulsora fundamental na formação cinéfila, que parece se desvanecer atualmente, tendo em vista que se em outrora essas mesmas crianças além de Deu a Louca nos Monstros ainda conseguiam encontrar no mesmo pacote geracional filmes como Os Goonies (The Goonies, 1985), Conta Comigo (Stand by Me, 1986) e claro, todos os filmes dirigidos por John Hughes. Hoje a sessão infantil se resume a animações (em sua maioria tolas e repetitivas) que limitam o alcance da imaginação, pois deparadas com aquilo que claramente não são atores reais, a criança tenderá a mastigar somente a imagem, mas não o fascínio da aventura de dimensão fantástica que é, para elas, a essência do sonho.

É interessante como a questão temporal se apresenta em Deu a Louca nos Monstros: o filme se inicia com uma ótima explicação que se passa no século XIX de como o Dr. Abraham Van Helsing por pelo menos cem anos impedirá que Drácula e sua turma malévola tentem dominar o mundo. Após esse flashback, uma elipse temporal traz a imagem para o que seria aquela atualidade de 1987 e que, ao invés de aparecer exposta como ano (“1987”), aparece determinada como “Nos Dias de Hoje (Present Day)”. É como se aquela história, dotada de uma força incalculável, pudesse resistir ao tempo e impedir que aquele conto sobre monstros se tornasse velho, fracassado, como se em mais cem anos o retorno de Drácula e sua trupe fosse algo mais do que determinado por essa inocente “história do cinema” (e por que não?), proporcionando uma identificação deliciosa com a infância das lembranças espetaculares, da imortalidade dos heróis de nossos sonhos. O tempo em Deu a Louca nos Monstros, ao contrário do Drácula que tenta eliminar seus protagonistas, é não-vampiresco, resistindo às revisitações de forma quase intacta.

O Mal no filme é representado por toda a evolução oferecida pelo cinema de horror da Universal que acopla desde Drácula (Dracula, 1931), de Tod Browning, com a junção de personagens como Frankenstein, a Múmia, o Lobisomem e o Monstro do Pântano. O diretor Fred Dekker (do divertido Night of the Creeps, 1986) demonstra o seu amor por esses clássicos e é amante confesso de revistas em quadrinhos como The Tomb of Dracula e consegue agrupar pela primeira vez em um filme os monstros clássicos mais importantes, ainda que esses personagens monstruosos possuam uma pobre caracterização espiritual: não fazem nada a não ser seguir as ordens do Drácula. Os únicos que se salvam são o Lobisomem e Frankenstein. No caso do segundo, Dekker toma a liberdade de mudar a cena das flores e do monstro à beira do lago de Frankenstein (Idem, 1931), de James Whale. Aqui a menina não é lançada à água pela inocente criatura, mas acaba sendo convertida na inseparável amiga do monstro.

A confrontação entre crianças e monstros se contrasta com outra confrontação permanente entre o mundo dos adultos (pais e professores) e das próprias crianças; antagonismo entre realidade e fantasia, porém, não excludente com os adultos quando se incorpora (de uma forma sentimental e de crença para com as crianças) à trama o velho Alemão como ajudante do grupo criado pelos jovens para combater o mal do Esquadrão Monstro. Esse personagem é o nexo entre ambos os mundos e é a partir dele que os monstros começam a se fazerem visíveis para os então incrédulos adultos frente à existência desses tipos de criaturas. Outro personagem “adulto” que se une ao grupo é Frankenstein. Surpreendentemente o monstro desobedece ao seu amo, Drácula, que ordena que ele mate as crianças e oferece ao espectador uma imagem inocente desse ser – mas é necessário constatar que no filme de Whale o monstro era igualmente amigável e doce, embora a inocência desse filme tenha sido o motivo da tragédia.

Na ótica da aventura infantil, Deu a Louca nos Monstros é o resumo etário esquecido pelos diretores de hoje dedicados à visão (suave) do mundo infantil, mas que com muita necessidade de se tornar uma aventura deliciosamente histórica, acaba alcançando a sua meta. Quem agradece é o espectador – de todas as idades.

Ricardo Lessa Filho


ISSN 2238-5290