Contratei um Matador Profissional (1990, Aki Kaurismäki)

Era final dos anos 80 e Aki Kaurismäki já havia se tornado o maior, ou pelo menos o mais conhecido diretor da Finlândia, quando produziu, dirigiu e roteirizou esta que sem dúvida merece estar entre suas maiores e mais engraçadas obras. Para incrementar ainda mais a receita, Jean-Pierre Léaud sairia dos filmes de Truffaut e de Godard para a Finlândia, ou melhor, para a Inglaterra (onde o filme foi rodado) para interpretar um funcionário público, de origem francesa, em fim de carreira na “terra da rainha”. Léaud poderá sempre ser recordado pelo personagem Antoine Doinel nos filmes de Truffaut, mas é aqui que ele se consagra um dos mais cômicos atores da segunda metade do século XX. O tal sujeito é dispensado do serviço público, próximo de se aposentar por causa de “cortes orçamentais” (interessante recordar essa obra neste momento que temos a oportunidade de ver a rainha da Grã Bretanha tendo que andar de carruagem, para diminuir seus gastos por causa da política do governo).

Não seria novidade que os estrangeiros fossem os primeiros sorteados e Henri [Léaud] fosse um dos “beneficiados”. Henri acaba por entrar em uma crise existencial seguido por uma má sucedida tentativa de suicídio e pouco a pouco vai descobrindo os “prazeres” da vida, mas sem antes contratar um matador de aluguel para matá-lo. Kaurismäki satiriza de forma genial a situação de isolamento do homem moderno e a descoberta de outro. A função de funcionário burocrático transforma o individuo em um ser sem vida e robótico. Quando é retirado de sua função, se autodenomina inútil. Henri por causa da má sucedida tentativa de suicídio, passa a beber, fumar e passa a descobrir o ser feminino.

Os prazeres humanos passam a ser sentidos e o personagem passa encontrar algum sentido na vida, com a ajuda de uma mulher infeliz (Margi Clarke), que também procura o tempo inteiro um motivo pra fugir do cotidiano. Desajeitado em um mundo desconhecido até então, os dois se vêem numa situação mais complicada, quando passam a serem perseguidos por um assassino contratado pelo próprio Henri. Enquanto Henri se vê na situação de defender a sua vida a qualquer custo, Magaret [Margi Clarke] encontra um motivo pra fugir de sua vida regrada. Essa talvez seja a obra que defina melhor a filmografia do diretor.

O estado de fuga e existencialismo que tanto persegue seus personagens encontra aqui sua forma ideal. A cidade grande volta a se tornar uma cela como em tantos outros filmes do diretor (e tão bem demonstrado em Calamari Union), que se encontram presos na selva de pedra e procuram a libertação do cotidiano. Mas um fato se diferencia de boa parte da filmografia do diretor o que faz essa ser uma obra singular: Inglaterra, ou melhor, Londres. Enquanto na Finlândia sentíamos aquele frio constante tanto pelas expressões dos atores (presente em toda sua obra), quanto pela paisagem nórdica, em Londres, sentimos uma capital viva e morta ao mesmo tempo. Viva por causa de tantas línguas e indivíduos que circulam os protagonistas ao contrastar com uma urbanização em ruínas e a paisagem pesada das edificações. O filme não seria o mesmo sem a atuação do inglês Kenneth Colley (Guerra nas Estrelas – Episódio V e VI, Firefox), que interpretou tão genialmente o matador profissional em estado terminal de câncer e que não para de fumar ator que, no entanto, passou boa parte da carreira em papéis secundários no cinema hollywodiano. O fato é que Contratei um Matador Profissional é o filme onde tantos gêneros se misturam (da comédia passando pelo drama, suspense ao thriller) e se transforma no típico gênero de humor-negro kaurismäkiano.

Nuno Balducci

Junho de 2010


ISSN 2238-5290