Quero Ser Grande (1988, Penny Marshall)

O doce cinema da juventude

O âmbito dos sonhos infantis é um vasto campo de desejos extravagantes, aspirações irrealizáveis e caprichos alimentados por uma acusada capacidade para imaginar situações grotescas – não somente no sentido da extravagância, mas também por aquela percepção muito além dos sentidos que apenas essa época, despida totalmente dos pudores limítrofes da imaginação adulta, proporciona. Todos nós, no início ou ao fim, fantasiamos em algum momento com robôs super poderosos, animais pré-históricos, personagens de desenhos, ou aventuras impossíveis. Não obstante, uma das auréolas que parece vertebralizar toda a infância é a aspiração irrefreável de se tornar grande, de crescer de forma apressada e converter-se em um adulto para realizar todas aquelas coisas que quando pequeno os pais proibiam com toda a razão do mundo. Quando (a)efetivamente, essa criança que fantasiava com as infinitas vantagens da maturidade se encontra intrincada no território dos adultos, sua percepção muda de forma irrevogável e agora ela busca a todo custo o retorno àquela etapa infantil de felicidade sem concessões, asfixiado tanto pelas obrigações inerentes da idade adulta quanto das reclamações das relações conturbadas entre os mais velhos.

E é da colisão afetiva e dos corpos (impossíveis de se manterem intactos em sua essência, pois o pequeno quer experimentar a aventura de ser grande, e quando transformado em grande, quer retornar ao terreno cândido daquele corpo menor e imaculado de obrigações) que Quero Ser Grande desconstrói o inconsciente desejo infantil em se tornar adulto e reconstrói – pela imagem da memória afetiva – a necessidade de retornar ao único lugar aonde o universo não é maior do que o sonho. É então que o pequeno Josh Baskin (Tom Hanks), um garoto de treze anos que vivencia em uma única noite o desprezo da menina por quem está apaixonado (ela é maior e mais velha) e decide pedir um desejo a estranha e enigmática figura de Zaltar: ser mais velho. Para sua evidente surpresa, na manhã seguinte ele descobre que se encontra aprisionado num corpo de homem de trinta anos, com os consideráveis problemas acarretados pelo pavor de sua mãe ao comprovar que seu filho desapareceu e em seu lugar está um homem desconhecido em casa. Apoiado pelo seu amigo Billy Kopeke (Jared Rushton), Josh empreende uma incerta viagem à cidade grande para averiguar onde se encontra a atração em ser adulto; uma busca infrutífera que o levará a se estabelecer como uma pessoa adulta, procurar um trabalho estável e inclusive se internar no mundo das relações sentimentais até comprovar que não existem tantas diferenças entre os homens mais velhos que o rodeiam e o caráter tenro e inocente da criança que na realidade ele é.

A colisão dos corpos é também fusão: fusionalidade inerente nesse processo catártico que é a ânsia em crescer, chegar a uma altura – não somente em nível de estatura, mas como também na tentativa de compreensão daquela nova situação – que proporcione a Josh essa descoberta de um mundo até então desconhecido, mas uma descoberta absolutamente restrita no quesito intelectual, já que Josh é literalmente uma criança aprisionada em um corpo adulto. E é essa restrição na descoberta intelectual que proporciona a Quero Ser Grande o duplo arsenal de seu fascínio: 1) a percepção do tempo se tornando tamanho – o corpo maior do que a imaginação, impossibilitando, pelo peso do tempo, o sonho daquela quase outra vida que é a infância; 2) a imagem corpórea (a configuração do próprio corpo formada e estruturada na mente do mesmo indivíduo) que em Josh é a conotação da tridimensionalidade – a construção contínua dos signos de sua infância até a sua vida “adulta”, e quando “adulto” em sua incessante tentativa de reconstruir aqueles signos ainda não descobertos de sua infância. Ou seja, esse retorno à infância que só pode ser sentido por aqueles que a transformaram em lembrança, em memória – afetiva, de amor mesmo, pois o trauma, o recalque não é nada mais do que uma mancha negra.

É fazendo com que o seu protagonista retorne ao corpo infantil – o corpo que lhe é essencial, e único modo de fazer com que a colisão do corpo seja reconstruída, mas esse “velho-novo corpo” já não é mais imaculado, pois a cicatriz da experiência vivenciada já está lá, antes mesmo que Zaltar pudesse remover a “maldição” – que o filme de Penny Marshall colide de forma irreparável com o – a falta de – afeto da vida adulta: demasiadamente grandes, pesados, a deliciosa sinestesia do sonho infantil se transforma em todos os tipos de frustrações dos mais velhos. Mas Quero Ser Grande reassumindo o lado místico de Zaltar consegue um outro tipo não de “maldição”, mas de magia: a de entreter e depois de tudo, de comover com uma natureza dual e estranhíssima ao cinema jovem dos últimos tempos o espectador e que eleva o filme à lembrança irresistível de um cinema de juventude que viverá para sempre enquanto houver imagens e olhos para assisti-las.

Ricardo Lessa Filho


ISSN 2238-5290