Os Goonies (1985, Richard Donner)

A pele da infância

Como uma metáfora de transição que trata de esquecimento, praticamente tudo o que se sucede em Os Goonies e nos anos oitenta são terminações concretas (porque tudo dessa década é facilmente reconhecido por todos) e simplesmente começou a formar a vida daquela geração de espectadores de uma maneira mais orgânica. Como se sempre (mesmo depois de tantos anos, décadas) esses espectadores estivessem estado ali de forma inquestionável, como as montanhas e as cavernas do filme. Não se põe em dúvida a montanha ou a caverna, e a Os Goonies tampouco.

Para aqueles espectadores que assistiram ao filme na pele da infância, Os Goonies parecem ser uma espécie de extensão da própria juventude infantil: frágil nas noções mais profundas em relação ao mundo, mas cuja profundidade do signo da amizade parece ter a capacidade de não somente ser o motor propulsor das aventuras, como também a chave da compreensão de outras coisas tantas, como por exemplo a do círculo da amizade que no auge de sua existência é maior do que a própria vida – ou morte. Aliás, o signo da morte não somente em Os Goonies, mas como em seus filmes-irmãos como Deu a Louca nos Monstros (The Monster Squad, 1987), de Fred Dekker ou até mesmo no recente Super 8 (Idem, 2011), de J.J Abrahms parece ser incapaz de justificar sua autoridade perante a imagem infantil que se projeta na tela, então a infância nesses filmes não se resume somente a ser o início do descobrimento da vida como também o próprio escudo dela: nesses filmes ser criança é ser protagonista da imortalidade e o “mal” por pior que seja será sempre o coadjuvante incapaz de derrotar essa imortalidade.

E se em Os Caçadores da Arca Perdida (Raiders of the Lost Ark, 1981), de Steven Spielberg , Indiana Jones foi a síntese do orgulho individual em busca do “tesouro perdido”, em Os Goonies essa busca se dá no olhar sobre e para a comunidade aonde vivem os garotos protagonistas, que está prestes a ser incorporada por um magnata que deseja destruir suas casas para construir centros de entretenimentos no lugar delas por causa de uma dívida de vários anos. O lema no filme não é alcançar o tesouro perdido para se tornarem ricos, mas para que de algum modo a amizade entre aqueles amigos não deixe de existir e o único caminho de manter a permanência dessa amizade é morando juntos, tendo o contato diário com os corpos dos amigos, porque as relações virtuais à época do filme não eram nada mais do que um sonho distante; a distância então para aqueles garotos era o fim de tudo o que construíram em suas curtas vidas, em termos relacionais.

O filme, pois, encontra esse frescor narrativo graças à sensibilidade de Richard Donner – que fez um dos grandes filmes de super heróis de todos os tempos, Superman – O Filme (Superman, 1978), daquelas obras que a própria percepção do super-herói é amplificada pela magia da humanidade que cerca o seu protagonista, um tipo de mágica, aliás, que Christopher Nolan dificilmente igualará em sua ânsia desesperadora de criar a última obra-prima do cinema –, que transforma a simplicidade da história devido ao perfeito uso da montagem e do ritmo visual que dialoga naturalmente com o espectador. As sucessivas “gags”, as tramas dentro das tramas, os apuros, os sustos, estão todos sequenciados de tal forma que a suposta frouxidão da história termina por ser absorvida pelo ritmo contagiante do filme, transformando sua primordialidade não mais na profundidade de sua narrativa, mas na mais profunda dimensão que os seus protagonistas podem alcançar – a dimensão da amizade incondicional.

A imagem de Os Goonies é a própria imagem-memória ossificada, guardada e evidenciada pelo tempo, pelo espaço. Não há fragmentos no filme que não remeta o espectador (pelo menos aqueles que vivenciaram de algum modo as décadas de 1980 e 1990) ao tempo da infância, quando ainda descobrindo o sentindo das coisas, guardava tudo não somente na memória ainda em construção, mas principalmente, na pele.

Ricardo Lessa Filho


ISSN 2238-5290