A Árvore dos Sonhos (1994, Jon Avnet)

A cena inesquecível de A Árvore dos Sonhos é a seguinte: a professora racista (interpretada, só agora descubro, pela maravilhosa Christine Baransky) interrompe a explicação sobre o trabalho que os alunos devem apresentar no fim do semestre – uma redação com o tema “porque minha vida é como uma tigela de cerejas” – para perguntar a Elvadine o que é que ela estava cochichando com a amiga. O que se segue é um monólogo quase cantado – um rap – no qual a garota negra examina as perspectivas de vida para ela e a amiga, sendo o horizonte mais brilhante a morte do namorado da mãe e a consequente inclusão da família no programa de bem-estar social. “Mas para falar a verdade, Ms. Stratford, eu acho que você, esse livro e esta classe inteira é uma tigela de merda”, conclui, indicador em riste, cabeça ziguezagueando devagar.

Cinismo chocante para uma criança. Mas Elvadine sabe das coisas. A vida para os personagens de A Árvore dos Sonhos não é nenhuma tigela de cerejas. Sofrer golpe após golpe é de praxe em narrativas de crianças; crueldade e abandono são enfrentados com coragem e caráter até o certeiro final feliz: a entrada numa vida adulta segura, confiante, imune às vicissitudes do destino. Não neste filme: a pessoa cresce e o sofrimento continua, implacável.

É assim na família Simmons. O filme começa com o retorno do pai de um hospital psiquiátrico, onde foi parar devido ao trauma sofrido na guerra do Vietnã. Ao longo do filme, ele luta para conseguir – e, depois, para manter – um emprego, até arranjar trabalho dinamitando pedras em uma caverna sob a terra para logo morrer em um acidente (a família não é indenizada). Para colocar os pratos de batata com purê e fritas na mesa, a mãe é obrigada a segurar dois empregos, colecionar cupons e guardar garrafas de vidro como uma espécie de poupança. Com o espectro da pobreza e da fome sempre rondando o casebre pré-fabricado, é natural que a melancolia seja o sentimento reinante nas cenas internas, claustrofóbicas e mal-iluminadas.

Não surpreende que as crianças, centro do filme, prefiram passar os dias de verão ao ar livre. Em certo sentido, elas têm a sorte de não perceberem o quão miserável é a sua situação. O seu problema é outro: a guerra. Stu e Lidia Simmons são inimigos ferrenhos dos irmãos Lipnicki, bullies proprietários de um ferro-velho. Os Lipnicki poderiam passar pela tralha que compõe a paisagem que habitam: mal vestidos, sujos, desgrenhados; o mais novo chega a andar com casca de ovo no cabelo. A pobreza de roupas velhas e cabelos despenteados das crianças Simmons encontra sua versão hiperreal e nada fotogênica nos Lipnicki.

A briga entre os clãs infantis pontua todo o filme. Cabe ao pai Simmons, uma figura que vai se aproximando da santidade (até tornar-se, depois de morto, um anjo de fato, o filme sugere) no decorrer da história, mostrar para os filhos as raízes da brutalidade dos Lipnicki: órfãos de mãe, filhos de um pai abusivo e alcoólatra, são ainda mais desamparados e sofridos que a média das crianças da pequena cidade.

É preciso esclarecer uma coisa: A Árvore dos Sonhos não é precisamente um filme “infantil”. É mais bem um dramalhão “adulto”, desses que arrancam lágrimas à força ao som de violinos. Dentro desse nicho, que opera com regras bastante rígidas, consegue, entretanto, uma sinceridade rara. Ela está no realismo das imagens e na atuação dos atores mirins, de uma naturalidade incomum. Comovem porque não parecem preocupadas em comover. Vivem a vida dia a dia, e estão preocupadas demais com a construção da casa na árvore e com aprender as coreografias dos sucessos da rádio para se desesperarem com a condição financeira e com o futuro. O desespero é dos pais (administrado, aliás, de forma bastante racional e com certa dose de otimismo) e dos adultos na plateia.

Mas, como todo bom dramalhão de Sessão da Tarde, A Árvore dos Sonhos precisa chegar ao seu final feliz. E ele chega, como frequentemente o faz, através de dois feiosos deus ex machina: uma salvação de última hora e uma casa nova (em péssimo estado, mas ainda assim uma sólida “casa de verdade”), cortesias do pai morto. E chega, na esteira, a obrigatória “lição de vida”, na forma da tal redação de escola que, descobrimos, Lidia estava lendo em voz alta na frente da classe durante todo o filme. O que Lidia aprendeu nesse verão? Que a guerra é uma máquina que ninguém entende e que foge ao nosso controle, mas que com amor e com a ajuda de Deus o ser humano é capaz de qualquer coisa. Sobem os créditos, todos enxugam as lágrimas.

É uma lição, enfim, um tanto incoerente e desonesta com quase todo o resto do filme. Não surpreende que, apesar de ter assistido incontáveis vezes A Árvore dos Sonhos durante minha infância, o trecho final houvesse sido apagado da minha memória. O que ficou comigo foi a sensação de tristeza infinita, algumas imagens de ternura e violência e a suspeita de que, no fim das contas, Elvadine é quem estava com a razão.

Pedro Neves


ISSN 2238-5290