A Garota de Rosa-Shocking (1986, Howard Deutch)

Tem filmes que a gente vê sempre que passam. Não importa se os pegamos na metade ou quantas vezes já foram vistos e revistos – passar por eles na TV é ser seduzido, sem chance de escapar. São filmes que a gente conhece de cor, mas cujos prazeres se renovam a cada sessão. Filmes que a gente ama.

A Garota de Rosa-Shocking é um desses para mim. A narrativa tem sua parcela de interesse, claro, mas o que me atrai no filme sempre que o vejo é a abundância de beleza que enche cada frame – beleza que não está exatamente nos enquadramentos nem na luz, nem em nada propriamente cinematográfico, mas nos objetos que enchem o campo e no meticuloso cuidado com que são arranjados em cena.

O filme é dirigido por Howard Deutch, mas é claramente “de” John Hughes, responsável pelo roteiro, pela produção executiva e pela sensibilidade. E como em todo filme de Hughes, é visível a importância dos cenários, da direção de arte e dos figurinos – bem como da trilha sonora – na criação do mundo adolescente no qual os personagens habitam. E como em tantos filmes de Hughes, a heroína, interpretada pela musa Molly Ringwald, é também uma criadora de mundos, uma inventora da sua própria realidade.

Andie, a tal garota de rosa-shocking, não inventa dias de folga ou mulheres nota 1000. Seu mundo é seu quarto, refúgio rococó de paredes papeladas, cortinas de renda, móveis antigos, pôsteres de Mondrian e quimonos na parede, fotos e ilustrações de moda em cada recanto. Sua forma de se vestir partilha do mesmo horror vacui: ela empilha peça em cima de peça, misturando épocas e estilos diversos, mas com coerência brilhante em relação à paleta e à sensibilidade suavemente romântica. É uma artista do vestuário, uma dandizette com o espírito do it yourself do punk, com o rosto de porcelana e cabelos de cobre harmonizando perfeitamente com a roupa e ambiente.

O amigo Duckie é seu equivalente masculino, com seu cabelo rockabilly, anéis de prata, óculos de John Lennon, meias coloridas e sua paixão por Elvis e Otis Redding – aliás, só a cena em que ele dubla e dança “Try a little tenderness” na loja de discos já vale rever o filme. E ainda tem Iona, a “mentora” e figura materna na vida de Andie, dona de um estilo ainda mais elaborado e bizarro, o melhor e pior dos anos 80 com pitadas de todas as épocas conhecidas.

O grande talento de Hughes sempre me pareceu a sua habilidade em criar mundos atraentes, cheios de uma atmosfera vagamente melancólica e personagens sedutores, mundos repletos de estilo. Nem sempre as histórias contadas se equivalem em genialidade ao universo na qual ocorrem, entretanto. Não é exatamente o caso de A Garota de Rosa-Shocking, mas também ele traz sua parcela de decepção.

O romance entre o menino rico e popular a garota pobre e esquisita se desenvolve de forma realista: começa difícil, cada um procurando no outro algo que falta em sua vida, e Blane acaba cedendo à pressão dos amigos e à vergonha que sente em ser visto com a freak da escola. A relação de Andie com o pai é tocante: ela serve de protetora de um homem em ruínas, quebrado pelo abandono da esposa e pelo desemprego. Ela precisa ser um pouco mãe, no carinho e no carão, como na bela cena em que exige que ele aceite a perda e siga em frente.

A decepção vem no final, uma exigência do estúdio depois de testar o filme com grupos focais. Andie não termina com Duckie, seu melhor amigo e devotado adorador, mas com Blane, personagem um tanto sem graça que parece aceitá-la mais para provar a si mesmo que possui caráter forte que por uma paixão arrebatadora. As razões de Andie parecem ligadas à possibilidade de ascensão social representada pelo menino rico, bonito e popular. Uma possibilidade de ascensão tanto na hierarquia da escola quanto na sua condição financeira, que, apesar do seu orgulho e independência, é causa de sofrimento e vergonha – vide a cena em que foge da loja de roupas quando vê uma colega rica provando vestidos e na virulência com que questiona Blane quando ele retira seu convite para o baile de formatura.

Mais triste é o final feliz de Iona: depois de diversos encontros com homens complicados que não a apreciavam, decide se contentar com o dono do pet-shop, mas para isso mutila uma parte gigante de sua personalidade: seu guarda-roupa. Na última vez que a vemos, está vestida, ela mesma admite, como uma mãe de família. Com um suspiro, se conforma com a ideia de que nunca arranjaria um marido se mantivesse toda a sua extravagância. Para alcançar alguns sonhos, é preciso fazer sacrifícios, e mesmo se apagar um pouco, parece ser a moral. Uma moral amarga demais para uma sessão da tarde.

Pedro Neves


ISSN 2238-5290