A Pequena Sereia (1989, Ron Clements & John Musker)

Quase todos os filmes da Disney seguem a mesma estrutura. No centro, um herói deslocado, que não se encaixa na sua comunidade de mentalidade estreita, e que almeja, portanto, se libertar das convenções que o constrangem. O herói tem um sonho, revelado na grande balada que invariavelmente canta entre a cena em que é apontado como um fracasso e a aparição da oportunidade para realizá-lo. É aí que começam suas aventuras, que terminam sempre em uma vitória diferente da que havia imaginado, e que o conduz de volta à comunidade como salvador. O herói não é rancoroso: faz as pazes com que aqueles que o haviam desprezado, que, por sua vez, aprendem a respeitar a diferença. Grande número musical, fim.

A Pequena Sereia não foge à fórmula. Mas o sonho de Ariel tem algo de diferente, de extremo. O que ela almeja é outro corpo. Mais que isso: ela quer viver como outra espécie inteiramente. O deslocamento em relação à comunidade não é um vago desconforto ou consciência de suas limitações, mas uma alienação completa. Nunca a vemos em seu palácio ou interagindo com outras sereias – só brigando com o pai. A primeira coisa que descobrimos dela é que não está nem aí para compromissos familiares ou de Estado: esquece do concerto do qual é a estrela para ir a um navio naufragado, em uma região infestada de tubarões, na busca por artefatos humanos. Sua obsessão com a vida em terra firme é proporcional ao absoluto desinteresse com as coisas do mar. Seu sonho é ser humana.

Ao ver o príncipe Eric, o sonho ganha contornos mais precisos, pois encontra nele a possibilidade de transformação. Ela quer o pacote completo: transformação corporal, inserção no mundo humano e amor. Úrsula, a bruxa do mar, traça um acordo, e conquistar Eric passa a ser sinônimo de tornar-se humana. O amor e o matrimônio como chaves para a realização completa.

O “verdadeiro amor”, que tudo conquista e pelo qual tudo vale a pena, o grande mito das princesas Disney, é a força que passa a mover Ariel. Aos realizadores não escapa o absurdo da situação, e cabe a Úrsula tecer comentários irônicos sobre a famigerada dependência das princesas em relação aos seus príncipes. “Se eu ficar humana, nunca mais estarei com meus pais e minhas irmãs”, reflete a sereia. “Mas… terá o seu homem!”, responde a bruxa. O preço da transformação é a voz de Ariel, única ferramenta de que dispõe para fazer o príncipe reconhecer nela a garota que o salvou do naufrágio. Para convencê-la de que a voz não é sequer uma parte dispensável do seu charme, mas um empecilho na conquista, a vilã canta alguns dos mais divertidos versos do cancioneiro Disney: “O Homem abomina tagarelas, garota caladinha ele adora (…) Sabe quem é mais querida? É a garota retraída, e só as bem quietinhas vão casar”.

O que ocorre, na verdade é o oposto: sem a voz, Ariel é incapaz de fazer Eric se apaixonar de verdade. Em poder da fala e do canto da sereia, Úrsula, por sua vez, consegue enfeitiçar o príncipe, e quase casa com o bonito. A voz, enfim, é a maior arma de sedução.

A trajetória da princesinha do mar me emocionava na infância pela intensidade do seu desejo de transformação, e me consolava com a promessa que todo sonho, quando perseguido com afinco, torna-se realidade. Mas a narrativa é apenas uma parte dos prazeres de A Pequena Sereia. A forma como fruímos um filme, principalmente na infância, é fragmentária. O absorvemos por partes, e à custa de muitas repetições. O que me encantava, antes de tudo, eram as canções fáceis de acompanhar, as cores claras e a paleta ensolarada e quente. Acima de qualquer coisa, me encantava Ariel. A beleza de sua voz, sua cauda verde, sua cintura minúscula, seus olhos enormes e seu cabelo, vermelho vivo, cheio, infinitamente maleável e fluido – maravilhoso. De tanto assistir, sabia de memória cada expressão facial da sereiazinha, cada sorriso, cada movimento do seu cabelo. Enrolando no corpo quando ela chega ao teto da gruta, traçando um arco quando ela o joga para trás ao chegar à superfície, voando em mechas revoltas ao vento, sexy e bagunçado quando seco na praia. Nunca me cansei de ver Ariel. Ela me revelou o princípio mais básico da cinefilia: o prazer em olhar.

Pedro Neves


ISSN 2238-5290