A Princesinha (1995, Alfonso Cuarón) / Matilda (1996, Danny DeVito)

Criança sofre. De João e Maria a Harry Potter, passando por Dickens, Emily e Charlotte Brontë e um sem-fim de filmes infantis, há uma longa tradição de narrar vidas de crianças atribuladas por desventuras em série. À mercê de um destino que não controlam, sujeitas a regras que desconhecem, desprovidas das ferramentas e da credibilidade para comunicar as injustiças que lhes são cometidas, as crianças representam um estado de vulnerabilidade extremo, completa sujeição aos caprichos do acaso.

Poderiam funcionar como metáfora para toda a condição humana, mas em geral essas histórias encontram seus “e viveram felizes para sempre”, inculcando nos mais novos a ilusão de que a idade adulta sana todos os males, aniquilando a insegurança e o medo. A vida adulta, nas narrativas infantis, é um plácido presente perpétuo, um fim-da-história.

É assim em A Princesinha e, em certa medida, também em Matilda (ainda que este tenha uma visão bem menos generosa dos adultos), dois filmes que seguem estruturas similares, com heroínas cheias de características em comum, mas que chegam a resultados bastante distintos.

As diferenças começam no ponto de partida. Sara Crewe é a princesinha branca de um paraíso colonizado, a “exótica” e “mágica” Índia. Ela passa o dia a ouvir histórias mitológicas de sua babá nativa, banhando-se entre os elefantes em riachos de água clara. Desfruta dos seus privilégios sem nenhuma consciência da excepcionalidade de sua situação. Nada lhe é interdito, nem mesmo o romance incestuoso com o pai, seu príncipe – a garota é, convenientemente, órfã de mãe. Obviamente não há no filme nenhuma conotação explicitamente sexual na relação pai-filha, mas Cuarón (que constrói, vale lembrar, o segmento “Parc Moceau” do filme coletivo Paris, eu te amo precisamente em cima da ambiguidade da relação entre uma jovem e um homem bem mais velho, e que explicita em E sua mãe também o conteúdo homoerótico da amizade entre dois rapazes adolescentes) parece brincar com clichês do cinema romântico nas cenas compartilhadas pelos dois: valsas silenciosas, olhares apaixonados, juras de amor, fotografia suave e ligeiramente desfocada etc.

Sara é arrancada dessa fantasia edipiana por força da Grande Guerra, que a separa do pai e a coloca em um internato para meninas em Londres. É o início da sua socialização, a introdução no mundo das regras e classes, da força da autoridade e da arbitrariedade da lei. A adaptação não é fácil.

Para Matilda, entretanto, a escola representa uma promessa de ordem e estrutura no caos de sua vida. Negligência é pouco para descrever a atitude dos pais de Matilda para com a menina. Dotada de uma inteligência excepcional e poderes mágicos (que só aos pouco vamos – nós e ela – descobrindo), a garota aprende a comer, se vestir, ler e se locomover pela cidade sozinha. Passa seus dias na biblioteca pública, devorando livro após livro – hábito que seus pais deploram. A escola é um lugar, acredita, onde suas inclinações intelectuais encontrarão eco em colegas e professores, e poderão desabrochar.

Não é bem o caso: sua professora , Ms. Honey, é um sonho de doçura e paciência, criativa, amável, que busca desenvolver com carinho e respeito as potencialidades de cada criança. Mas vive aterrorizada, como o resto do colégio, da diretora, Ms. Trunchbull, uma tirana de crueldade caricata, que arremessa garotinhas pelas tranças e prende crianças malcriadas em armários escuros cheios de cacos de vidro e pregos enferrujados.

Ambos os filmes apresentam a escola como uma instituição repressora, inimiga da imaginação e da diversão, da criatividade e da individualidade. Em A Princesinha, é fábrica de conformismo e submissão; em Matilda, é playground de uma sádica insana, que sonha com uma escola sem uma única criança, onde tudo correria tranquilamente e ao seu gosto.

É no contraste entre a condição infantil e a adulta que reside a causa para os sofrimentos das crianças da ficção, e a forma como os adultos são representados diz bastante sobre as diferenças entre os filmes. Em A Princesinha, adultos vêm em todas as formas e cores: maus como a diretora, tolos e bondosos como a governanta e o leiteiro, sábios como o criado indiano, maternais como a babá e nobres como o pai. Com engenhosidade, as crianças conseguem cometer pequenas vinganças e conquistar pequenas vitórias, mas precisam de um adulto para a salvação completa; carecem da autonomia para se defenderem por si.

Em Matilda, entretanto, os adultos são sempre grotescos e estúpidos. O pai é desonesto, vulgar e grosseiro, e os policiais são burros e incompetentes. Das mulheres, só Ms. Honey escapa, talvez por melhor corresponder a um ideal feminino: é delicada, doce, passiva e artística, enquanto Ms. Trunchbull é masculina, corpulenta, agressiva, militarizada e atlética e a mãe é sexual, vaidosa, anti-intelectual e consumista.

Ms. Honey é, essencialmente, uma criança: vive à sombra da tia, vitimada pela usurpadora dos bens do seu pai, incapaz de refazer sua vida de forma independente. Em uma inversão dos papeis normalmente reservados para adultos e crianças em histórias do tipo, inclusive em A Princesinha, é a criança aqui que salva o adulto: é Matilda que consegue livrar Ms. Honey – e a escola – de Ms. Trunchbull, permitindo que ela resgate sua casa e sua autonomia.

Sara e Matilda, cada uma a sua maneira, são crianças especiais. Essa excepcionalidade é a raiz dos seus problemas, mas também o que as permite subverter a ordem das instituições em que são inseridas, conseguindo, ao fim, derrubar as figuras de autoridade que as governam.

A principal característica de Sara, constantemente reiterada, é a “nobreza”, seu status de “princesa” – um status que não corresponde a sua ligação sanguínea com alguma família real, mas com qualidades inatas. Ela é uma criança carismática, com tendência para a liderança: em pouco tempo na escola já conta com quase todas as colegas como aliadas, inclusive as súditas da outra aspirante a rainha, sua inimiga, naturalmente. Mas Sara não deseja o poder – são as colegas que gravitam em sua direção, encantadas com seu dom para contar histórias e sua “bondade” genérica (é a única que se compadece de uma colega rejeitada por todas e da jovem criada negra).

À medida que lhe vão sendo retiradas todas as regalias devido à morte do pai, Sara vai tornando-se uma figura cada vez mais altruísta. Suporta seu martírio com serenidade e esperança. Há algo de fantasia masoquista infantil nas cenas de seu sofrimento, um gozo ressentido no caminho da princesa rumo à santidade. A cena em que ela, faminta, dá seu único pedaço de pão a uma família de pitorescos mendigos vendendo flores na neve parece extraída dos delírios de um coroinha.

A intensidade do sofrimento é proporcional à glória da vitória: no último momento, o pai retorna para restaurar a ordem, salvar a princesa e libertar as garotinhas da escola da tirana que as escraviza. A vingança é absurda e perfeita: a diretora, apaixonada pelo poder, termina como ajudante do limpador de chaminé que antes desprezava. O que torna o final de A Princesinha interessante é o exagero da inverossimilhança, que vai crescendo até tomar o filme completamente. Há uma terrível ambiguidade no final feliz, a suspeita de que tudo não passe de uma fantasia, um faz-de-conta no qual Sara precisa acreditar para suportar a dureza de sua realidade. Se o momento em que o vizinho sem memória reconhece enfim a sua filha e lembra-se de sua origem nobre é o ponto de entrada de Sara na loucura, tudo em seguida seria puro delírio da menina.

Enquanto Sara é nobre até na sarjeta, Matilda não tem nada de princesa. É um gênio e possui poderes mágicos, mas tudo o que deseja é ser uma criança como as outras. Na escola ela é mais uma, e lá encontra amigos com quem compartilha prazeres e descobertas que antes eram solitários. É graças aos seus poderes que colegas conseguem operar milagres (como comer um bolo inteiro ou deslizar por um campo florido quando arremessados para morte certa pela diretora), mas Matilda é discreta e modesta demais para chamar atenção para si. É ela que possibilita o início da insurreição das crianças contra a diretora, mas é o conjunto dos alunos que leva a cabo a humilhação e expulsão de Ms. Trunchbull. Há, enfim, algo de democrático (e não monárquico) na forma como Matilda utiliza sua individualidade, o que a torna uma personagem bem mais simpática que Sara. E a inversão da lógica das narrativas do tipo, com a expulsão dos adultos e a instauração de uma ordem bem mais sensata e humana, faz do filme um raro e feliz exemplo de cinema infantil que parece pensado por e para crianças.

Pedro Neves


ISSN 2238-5290