Quem é Essa Garota? (1987, James Foley)

Que Hollywood que nada. É Nova York o lugar que assombra meu imaginário cinéfilo. Não foram necessários muitos anos de cinema para que uma ideia muito clara da cidade (A Cidade) se formasse em minha mente. Era uma cena de Quem é essa garota? sua síntese perfeita, na minha visão de criança: o advogado almofadinha encontrando o Rolls-Royce completamente vandalizado depois de algumas horas no Harlem. Em Nova York é assim. E a alegoria perfeita para A Cidade era a tal da garota: bad girl da classe operária, um pouco louca, um pouco perigosa, toda sedutora. Casaco de couro, meia arrastão, luva de motoqueiro, louro oxigenado. Radical. E, afinal, quem é essa garota? Eu era incapaz de responder: um tsunami, puro Id, impulso irracional, energia incontrolável – Shiva, o destruidor. Como dialogar com essa mulher? Ela rouba fitas cassete, ela dirige pela calçada, ela bate e atira. Ela é ! Que diferença faz um par de décadas. Agora é muito claro: ela é Judy Holliday em Nascida Ontem, é Katharine Hepburn em Levada da Breca, é Marilyn Monroe. Os anos 80 fascinados com a história do cinema americano, criando pastiche de screwballs da época da Grande Depressão. Ela é uma fofa. Mas quando eu assistia, com misto de encanto e revulsão, Quem é essa garota? na Sessão da Tarde, não conseguia entender por que um rapaz tão bonzinho escolhia ficar com uma doida dessas depois de todas as “altas confusões” por ela armadas. Anos antes da Cabala e Jesus Luz, Madonna dava medo.

Pedro Neves


ISSN 2238-5290