Uma Cilada para Roger Rabbit (1988, Robert Zemeckis)

Tem filmes que não precisam ser vistos para incendiarem o imaginário. Assistindo Uma Cilada para Roger Rabbit para esta edição do Filmologia, me dei conta de que, provavelmente, era a primeira vez que o via inteiro. Algumas cenas reconheci imediatamente, mas confirmei o que suspeitava: o filme, para mim, sempre foi essa série de fragmentos fascinantes incrustados em um todo bastante turvo, incompreensível, quase. Isso porque, para mim, Roger Rabbit – apesar das inumeráveis aparições dos meus personagens preferidos dos desenhos – era um filme “para adultos”. Eu nunca havia captado as referências ao sistema de estúdios da velha Hollywood, nem as homenagens ao film noir. O saudosismo das velhas animações da Warner Bros. não fazia sentido – os Looney Tunes eram parte do meu presente, não uma relíquia de outra era.

Assistindo ao filme agora, pude compreender tanto o que me afastava do filme quanto a razão pela qual ele me marcou tão fortemente. A verdade é que Roger Rabbit, no fim das contas, é bem ruim. Chato, chato, chato. Não há nada nele que não seja flagrantemente inserido para causar um gritinho de reconhecimento, um “olha só aquele personagem!” – Shrek sem o humor. O roteiro passa mecanicamente por todas as revelações e reviravoltas esperadas em um blockbuster “policial”. Como tantos filmes de verão, passa a impressão de ser uma grande peça publicitária para os estúdios cujos personagens animados fazem cameo (product placement parece um termo mais apropriado) – Warner, Disney, Universal, Turner – e para os produtos licenciados que serão vendidos na esteira do “sucesso” já previsto e computado. No centro de tudo, Roger Rabbit, um protagonista francamente insuportável. Surpreendente como a graça e o humor dos desenhos animados homenageados está ausente do filme. A aceleradíssima sequência inicial, pastiche dos curtas de Tom & Jerry ou Piu-Piu & Frajola, erra completamente o timing preciso das produções originais.

E qual era atração de Roger Rabbit então, por que sempre que ele passava na TV eu não ousava mudar de canal, impacientemente esperando as cenas que eu gostava? Fácil: Jessica Rabbit. A femme fatale. Caricatura grotesca de sex appeal, paródia exagerada de Rita Hayworth com o corpo de Anita Ekberg, equivalente feminino dos motoqueiros de Tom of Finaland, Jessica é um personagem fantástico. Sua aparência, sua forma de mover-se, sua voz, tudo nela é risivelmente, ridiculamente sexy. Pena que aparece tão pouco. Um Cilada para Jessica Rabbit: taí um filme que valeria a pena assistir.

Pedro Neves


ISSN 2238-5290