Elegia da infância

Conta Comigo é um filme marcado pela nostalgia. Normal, em se tratando de um filme sobre a infância. Mas o que o torna especial é a forma como a sua própria estrutura sugere que estamos diante de memórias pessoais, de uma história lembrada, contada e recontada tantas vezes que se cristalizou em uma narrativa fechada, direta e repleta de significado. Um momento da vida entre outros, que por força de tudo o que aconteceu depois acabou por adquirir a carga de momento-chave: o fim da infância em dois dias.

Esse efeito é logrado graças à economia com a qual a história é contada. O narrador elimina da narrativa tudo que não a faz conduz ao ponto desejado. Os garotos caminham, portanto, por uma paisagem estranhamente deserta, num isolamento que reflete a sua própria experiência: naqueles dois dias, ninguém mais existia além dos quatro. O que não quer dizer que não haja digressões (como os flashbacks de Gordie com o irmão e a história que ele conta ao redor da fogueira), mas estas são essenciais para a compreensão do personagem, de quem ele era e quem irá se tornar. Como num bildungsroman, os elementos que constituirão sua personalidade adulta estão todos lá na infância, latentes.

A última aventura do verão é uma jornada para ver um cadáver. Um cadáver de criança, um menino como eles. A história ganha contornos de alegoria. A princípio, a excitação em ver de perto a morte, aliada ao perigo do proibido, é o que os move, sugerindo uma insensibilidade que corresponde a inocência. Aos poucos a viagem vai tornando-se inexplicavelmente solene, até que, ao chegar ao objetivo, é como se uma pequena mas transformadora epifania os atingisse. O cadáver é a própria infância, que morre com o choque de realidade que é o corpo inerte do menino – um lampejo do horror e tristeza do mundo. A terrível revelação das suas próprias mortalidades acarreta em um amadurecimento repentino.

O retorno é triste, com o sol se pondo sobre a época da inocência. A partir daí cada um vai seguir seu caminho, diferenças de personalidade e de classe, a princípio sequer percebidas, impondo-se como barreiras cada vez mais sólidas. A vida se encarrega de separá-los com uma violência suave, quase imperceptível. Para os que sobreviveram, impossível saber o que significou aquele verão. Para Gordie, ficou gravado na memória como ponto de virada, o fim de uma era em que a amizade simples de criança era o bem mais precioso. É a partir dessa leitura do próprio passado que se senta para narrar sua história, em formato de fábula, simples e poderosa.

Pedro Neves


ISSN 2238-5290