A nostalgia e o mito

A década de 80 era obcecada pelos anos 50, do mesmo modo que nós – pelo menos em alguns extratos – somos obcecados pelos anos 80. Esse fascínio pelos fifties chegou a ser traduzido de diversas formas no cinema. Temos, por exemplo, o pastiche frívolo, quase “vazio”, que um filme como Cry Baby, de John Waters, já de 1990, parece exemplificar ou resumir, encerrando os excessos de uma década para abrir outra. Ou, por outro lado, podemos apontar para o pathos de Veludo Azul (1986), de David Lynch, onde os anos 50 voltam apenas enquanto ícones doentios. Conta comigo trata os anos 50 de uma maneira diferente. É uma maneira séria, respeitosa, quase-sagrada: nostálgica.

Há tipos diferentes de nostalgia. Pode-se manter uma relação afetiva com um passado para enxergar nele linhas de ação e continuidade no presente. Essa relação pode ser crítica (e subverter as expectativas do presente senso comum), mas pode também ser marcada pela experiência do sagrado e da idealização – e reforçar, cimentar, certo estado de coisas; dar a esse estado toda a solidez, o lastro e a força de um museu imaginário que se projeta no atual apenas para prendê-lo e estabilizá-lo. Tal é a nostalgia de Conta comigo: uma nostalgia conservadora.

A princípio parece não ser este o caso. A década de 50 que temos aqui, aparentemente, não tem nada de “mítica”; faz, até mesmo, uma espécie de oposição ao mítico: Gordie é o filho mais novo rejeitado, sobretudo quando todos sofrem pela morte do seu irmão mais velho – um ícone brilhante, um jogador de futebol americano para todos da comunidade, um exemplo ou modelo. O filme, pelo contrário, se interessa pelos anos 50 dos palavrões, das crianças sem futuro, dos jovens marginais, das conversas completamente “sem importância” que temos aos 12 anos. O que o filme faz, no entanto, não é criticar a mitologia. É trocar um mito pelo outro: saem os grandes anos 50 dourados (o irmão de Gordie está morto) e entram os pequenos anos 50 do cotidiano banal. Cotidiano que não serve como motor crítico, mas apenas como um novo objeto de sacralização.

Em 1972, Terrence Malick fez um filme sobre os anos 50: Badlands. Malick ainda não estava na década de 80: acontece que ele sempre foi e até hoje é (ver A árvore da vida) um completo obcecado pelos anos 50. A certa altura do filme, Kit, um criminoso perigoso, dança com Holly e ao ouvir a música, ele fala, num tom de desespero calmo: “eu queria conseguir ter esse talento que os melhores artistas têm: de expressar, de conseguir botar pra fora exatamente o que está e eu sinto na minha cabeça”. A cena noturna é envolta na densidade de um mistério inominável. A câmera de Malick filma Kit mas… o que é Kit? Nunca saberemos totalmente. Apenas podemos investigar e tentar enxergar o que nós, até hoje, temos de Kit, ou simplesmente ignorar essa herança maldita.

Os personagens de Conta comigo, pelo contrário, parecem poder se expressar muito bem. O passado não é um sítio de mistério onde podemos nos encontrar. É um sítio de Verdade que se projeta em nosso presente. Não por acaso, o filme começa no presente: Gordie é hoje um adulto, um escritor (até onde podemos perceber, sem muito estilo). O filme nos chega através de sua narração. Antes de colocar o “the end”, ele escreve: “nunca tive amigos tão bons quanto quando eu tive 12 anos. Jesus, alguém teve?”. Tal é o mecanismo do mito nostálgico: toda uma visão fechada do passado é mobilizada para levar a cabo uma generalização no presente. Uma generalização feita para nos identificarmos, para forjarmos um desenho de comunidade que está longe de ser consistente.

Em Conta comigo, a estética do cotidiano é apenas o disfarce da estética do mito: nem os diálogos sobre Mickey Mouse, nem os xingamentos e palavrões são mais fortes que sua embalagem – a melancolia de Gordie e a aproximação das crianças de um cadáver. Mas o corpo morto não está tão deteriorado ou assustador assim. Na verdade não há nada o que temer. Estamos distantes da elegância atmosférica, quase demoníaca, de Malick e muito próximos de um roteiro que determina o filme todo, com seus momentos calculados de emoção, tristeza, comédia e aventura. Temos também músicas dos anos 50 pouco amarradas com o universo diegético, só pra reforçar o verniz e o clima nostálgico. Ao fim, o amigo sem futuro de Gordie, Chris, morre ao tentar apartar uma briga, não sem antes ter se tornado um… advogado. Muito distante da imaginação cinicamente naive de Conta comigo, o ator que interpreta Chris, River Phoenix, morre por overdose de heroína e cocaína.

André Antônio


ISSN 2238-5290