Por Alguma Verdade

As coisas mais importantes são as mais difíceis de expressar. São coisas das quais você se envergonha, pois as palavras as diminuem – as palavras reduzem as coisas que pareciam ilimitáveis quando estavam dentro de você à mera dimensão normal quando são reveladas. Mas é mais que isso, não? As coisas mais importantes estão muito perto de onde seu segredo está enterrado, como pontos de referência para um tesouro que seus inimigos adorariam roubar. E você pode fazer revelações que lhe são muito difíceis e as pessoas o olharem de maneira esquisita, sem entender nada do que você disse nem por que eram tão importantes que você quase chorou enquanto estava falando. Isso é pior, eu acho. Quando o segredo fica trancado lá dentro não por falta de um narrador, mas de alguém que compreenda.

As palavras acima, parágrafo de abertura do conto de Stephen King que deu origem ao filme Conta Comigo (publicado no livro Quatro Estações, sob o título O Corpo), servem demais para justificar minha participação na presente edição deste site. Se não peço desculpas por furtar à primeira pessoa aquilo que deveria se esperar de uma resenha crítica sobre o filme de Rob Reiner, é porque quanto mais eu penso em falar de um filme assim, mais percebo que falarei de mim. Na verdade, talvez o verbo subjetivo nunca tenha sido tão necessário por aqui como agora, numa edição com filmes que, de tão nossos, termina por ser quase um estado de confissão. Conta Comigo, o consenso dos olhares aqui reunidos, serve, com isso, de ponto de partida, largada de um caminho sinuoso, pois tão íntimo e conhecido que chega a ser estranho.

O filme, absoluta resolução de afetos fundamentais a fraternidade, é peça que penetra a memória em níveis irrecuperáveis. Dessas coisas que uma vez provadas, ficam para sempre. E por isso pretender falar algo a respeito seja tão difícil, que beire o improvável. Retornar a ele ganha, pra mim, ainda mais significado por me reaproximar de um autor (King) que também ocupou minha cabeceira desde a infância com freqüência. Filme e livro, faces de um mesmo espelho, fundaram muito do que trago hoje no olhar, desses segredos enterrados no peito, impossíveis de roubar.

E não há como evitar a paráfrase do texto transcrito. Pois se há uma coisa esclarecida com tudo isso, em meio a tantas revisões de filmes amados e incontáveis conversas com os demais membros da equipe, é de que realmente as palavras arriscam a redução de um amor, daquilo que se goza em domínios maiores que a razão. Disso também sabe o pequeno narrador de Conta Comigo, alter ego de King, e dono de algumas feridas que buscavam na escrita não uma cura, mas o alívio de saber que há dores mais profundas – como a de escrever, justamente. A longa jornada enfrentada por ele e seus três amigos, fato comum na literatura do escritor, é cinematográfica até a essência, trama das mais abstratas que poderia haver para a imagem em movimento. Em resumo, eis um filme sobre quatro garotos que perseguem os trilhos de um trem. Nada mais que isso. E que nesta errância, aprofundam valores e percepções humanas imprescindíveis para a manutenção de sua amizade e vidas, a começar da compreensão da morte, falibilidade que ressalta em tudo o caráter urgente das coisas.

A urgência desta edição também se configurou a partir de consciência semelhante, no saber que, de uma forma ou de outra, morremos em nossos textos, naquilo que fica do que sentimos, no que não retorna. Acertar as contas com o passado e aceitar tanto do que desde cedo amamos – desde um tempo em que a cinefilia não significava nada, pois enquanto crianças concentrávamos os filmes em nós com uma verdade diversa – foi o passo natural daquilo que hoje nos leva a escrita, do que ainda vive em nós. Daí que ao ver os quatro garotos paralisados diante da grade acima, posso também me entender como desejoso de ultrapassar um risco, penetrar numa dimensão que, no meu olhar atualmente treinado e viciado, insisto em me afastar.

Enfatizando a amizade de seus personagens, Stephen King descreve que “ao olharem dentro dos olhos uns dos outros, eles viam algumas coisas verdadeiras que os faziam amigos”. É nesta verdade, por alguma verdade remanescente da relação com os filmes da infância, que estabelecemos a troca de olhares sobre Conta Comigo, assim como todo o retorno aos filmes que não podem ficar apenas no passado. Talvez seja pela boa audição de Stand By Me (uma sugestão: a leitura do site fica bem acompanhada pela mesma trilha), por algumas cenas que a direção segura de Reiner tornou antológicas (o quase atropelamento dos meninos pela locomotiva, o mergulho no pântano infestado de sanguessugas, o encontro final com o cadáver tão procurado por eles – todas imagens de um amadurecimento precoce, mediações de um movimento por demais interno ao ato narrativo) ou até pela participação inusitada de atores em certa forma ícones de uma infância perdida (Dreyfuss, Cusack, Lee McCain); o que não faltam são méritos para que Conta Comigo continue a ser um privilégio da memória.

Destranquemos então o segredo, aguardemos a compreensão, continuemos em busca das coisas mais importantes, das palavras que as revelem em justa medida, do ilimitável. São estas as revelações que poderosamente renovam o que nunca nos fugiu, aquilo que esperava o tempo do compartilhar. No outro lado dos trilhos haverá sempre um horizonte.

Fernando Mendonça


ISSN 2238-5290