A caminho do descobrimento

“Lembro da minha juventude e de um sentimento que nunca mais haverá de voltar – o sentimento que eu poderia durar para sempre, mais do que o mar, do que a terra, do que todos os homens; o ilusório sentimento que nos atrai para alegrias, para perigos, para o amor, para o vão esforço – para a morte; a triunfante convicção de força, o calor da vida numa mão cheia de pó, a chama do coração que todo ano diminui, esfria, arrefece e expira – expira muito depressa, depressa demais, antes da própria vida.” – Joseph Conrad em Juventude

Confeccionar um pedaço da arte requer, além do mérito do esforço e do talento, a absorção das exterioridades nele refletidas que assim perfilha a arquitetura de seu valor. Conta Comigo estende essa transmissão de exterioridades em seus personagens porque essas crianças embora estejam vivenciando uma “aventura” jamais poderiam defini-la como tal do mesmo modo que as crianças de Os Goonies (The Goonies, 1985), de Richard Donner ou de Deu a Louca nos Monstros (The Monster Squad, 1987), de Fred Dekker, e até mesmo do recente Super 8 (Idem, 2011), de J.J Abrahms, porque para eles essa “aventura” é uma fuga à margem, uma espécie de constatação iniciática do mundo adulto que os abjuram e que, nessa expectoração, acabam prematuramente proporcionando a eles uma consciência das coisas ao redor muito maior do que todas as outras crianças protagonistas dos três outros filmes citados.

Essa consciência prematura de seus jovens personagens é ainda mais aflorada em Gordie (Wil Wheaton) e Chris (River Phoenix) que de certo modo compartilham uma sensação de vida desperdiçada, não por eles enquanto crianças, mas por seus respectivos pais: o de Gordie que não para de culpá-lo pela morte do filho mais velho que era um promissor atleta de futebol americano, e o de Chris que manchado pelo histórico familiar de delinquência sofre com a perseguição da comunidade. Na relação entre eles surge uma complementação importante na tentativa de entender – e desvendar – a dimensão da percepção infantil em um ambiente interiorizado e hostil (o dia a dia de suas vidas com suas famílias) que quando confrontado faz os combatentes marcharem para um mundo maior, o da aventura, cujo ambiente irreduzível daquele mundo exterior parece transferir algum sentido supremo de vida (não só da época da infância, mas também da vida em si em toda a sua plenitude), sensação libertária e de compreensão do mundo e de suas relações doloridas que má paternidade alguma poderá arrancar.

Sobre o conto The Body (no Brasil, O Outono da Inocência – O Corpo, presente na coletânea As Quatro Estações), de Stephen King (a história é alguma coisa da vida do escritor, quase uma autobiografia), Rob Reiner realiza a primeira de suas adaptações sobre o material kingiano, e certamente consegue o seu melhor trabalho com o olhar melancólico pela infância perdida com toques fantásticos tão caros ao seu autor literário num universo infantil que também o é tão querido, numa viagem iniciática, uma viagem exterior, de quatro crianças no início da adolescência buscando um corpo sem vida (que no contraponto perfeito, acabam encontrando um novo sentido para vida) de um rapaz com um pouco mais de idade do que eles, mas, sobretudo, Reiner (e King) concebe(m) uma quase viagem no tempo porque depois daquela aventura, daqueles dias aonde nada parecia atravancar aquelas crianças que desafiaram os mais velhos, um cachorro, um trem e a própria morte que o adeus da inocência se efetiva: aquelas crianças ao fim já não são mais crianças.

O maior mérito do filme é fazer corresponder absolutamente todo o elemento formal e narrativo à nobreza de seus protagonistas. Tudo aqui parece extrapolado de um mundo imperado pelo cinema enquanto meio de educação, de transmissão de vivencias, de aprendizagens fundamentais para legitimar a sobriedade do olhar infantil ante a perversão do mundo adulto – o relato do fenomenal River Phoenix ao personagem de Wil Wheaton sobre uma professora que o humilhou é de uma força assustadora, imagem-semelhança da precoce conscientização que ele (e o seu personagem) possui do mundo: seus olhos explodem com lágrimas furiosas, quase sanguinolentas, a testa engelha, o maxilar se contrai e então se compreende o porquê de Milton Nascimento ter realizado a música Carta a um Jovem Ator especialmente para Phoenix. E quando já crescido, Gordie resgata a história dele e de seus amigos de um lugar cuja profundidade da lembrança é maior e mais pessoal do que qualquer rascunho digitalizado ou em papel: a memória do coração.

Ricardo Lessa Filho


ISSN 2238-5290