Enchente – Quem Salvará Nossos Filhos? (1993, Chris Thomson)

Desde a primeira vez que escutei falar sobre Enchente, minha apreensão costumava ganhar contornos pela própria propaganda que soturnamente reforçava o título, Quem Salvará Nossos Filhos?, como se o locutor estivesse me interpelando, enquanto espectador, a acalentar e compartilhar do luto de pais, mães, irmãos, sobreviventes e familiares desesperados, cada qual trincado entre a esperança, a falta de informação e o golpe de misericórdia. Toda a narrativa do ônibus com um grupo de crianças evangélicas atingido pela fúria do rio, depois de uma noite de tempestade, seguido dos inúmeros infantes arrastados pelas águas, tentando se agarrar a árvores, galhos e troncos, circunscreve a condição do ser humano em sua luta primária pela sobrevivência, tecendo um limite que os leva à desistência, numa situação solidária e poética, associada ao sentimento avassalador de que todos precisam cuidar de todos, especialmente os mais velhos dos mais novos, os mais fortes dos mais debilitados. Ainda assim, como um bom herege desde pequeno e pelo filme ser “baseado em fatos reais”, sentia uma tranquilidade mórbida de que, no final das contas, a fúria da natureza e a crueldade dos homens não faria diferença entre crentes e não crentes. Todos estavam condenados.

O filme também foi provavelmente uma das minhas primeiras experiências com a estética caseira incorporada em meio às “imagens de cinema”, emulando uma “compaixão sensacionalista” do telejornalismo que no caso de Enchente – Quem Salvará Nossos Filhos se concretiza em heroísmo e culpa (muita culpa). Essa ontologia híbrida da produção audiovisual remete-me diretamente, talvez por um critério apenas cronológico, às reportagens sobre a Guerra Civil Iugoslava (1991-2001), que diferente da Guerra do Golfo onde tudo era distante, tudo era videogame, víamos os jornalistas em meio as batalhas, pessoas sendo atingidas na frente das telas, os câmeras fugindo das balas, um som insuportável de explosões que finalmente abriu meus olhos para o verdadeiro aspecto de um conflito bélico. O filme de Chris Thomson aposta nessa aproximação estratégica e além disso, começa com cenas de filmagens caseiras, dos pais se despedindo de seus filhos antes de partirem para o acampamento, alguns deles abraçando suas crias pela última vez, como se estivesse ali, diante de nossos olhos, talhando epitáfios involuntários.

O instinto de sobrevivência dos jovens se infiltra em nosso próprio instinto de espectador, de forma que o processo de identificação se divide em dois caminhos. O primeiro é o próprio caráter de tragédia que está em jogo, da força das águas carregarem uma grandiloqüência tal que quando o resgate se inicia, sentimos o mesmo frio na barriga das tragédias reais (que sempre são em devir as nossas próprias tragédias). Enchente ao lado de O Resgate de Jéssica nos ensinou a intensidade do gênero, de como os filmes-catástrofe podiam ser feitos com baixo orçamento, mantendo a dimensão do fim irrecuperável como punctum irreversível. O segundo caminho não é bem uma empatia que desenvolvemos pelas personagens em si, afinal acompanhamos apenas o último dia de comunhão no acampamento, as apresentações são bastante breves, mas ainda assim logo somos enlaçados pela ternura presente nas relações de amizade ou familiaridade que possuem. Por isso, o filme nos causa tanta dor: o tempo todo ouvimos notícias de que alguém morreu, mas esse recebimento ganha um patamar pessoal, próximo, absolutamente diferente de Independence Day ou 2012 em que um morto, dois ou dez milhões não fazem a mínima diferença.

Por fim, repito aqui uma passagem que já postei em meu blog de Brenda, em algum episódio ainda da primeira temporada de Six Feet Under, que num diálogo sem grandes pretensões comentou que quando você perde um cônjuge, se torna viúvo ou viúva, quando é criança e perde o pai, se torna órfão de pai, quando é criança e perde a mãe, órfão de mãe, mas quando você perde um filho, a dor é tão terrível que não existe um nome. Enchente se torna ainda mais impactante porque acompanha essa “dura espera por informações” por parte dos pais, esse limbo de não saber se estão vivos ou mortos, metricamente entrecortado pelas crianças a todo custo tentando sobreviver. Quando chegam alguns resgatados pelo helicóptero, as mães daquele condado rural conservador olham apreensivas, apertando os braços de seus maridos, torneando uma tensão que faz do som das hélices uma marca permanente do encontro ou da decepção: “enquanto eu viver, esse som vai estar no meu coração”. Além disso, enquanto famílias se reencontram, outras passam a encorpar uma inveja incontrolável, quase como se a felicidade dos outros tornasse o contexto ainda mais terrível, num pressuposto de que “quanto mais sobreviventes de outras famílias, menos sobreviventes da minha”. Natural que, ao olhar mais um abraço fraterno e aliviado, uma mãe inundada de horror solte: “ai, meu Deus, como queria que fosse eu agora”.

O organograma de personagens e tramas é bem diverso. Temos o irmão mais velho que sempre cuida das irmãs mais novas; ele sobrevive, mas as garotas não; quando chega ao hospital que está recebendo os vitimados, ainda busca suas irmãs, no entanto, o que encontra é um olhar de culpa e severidade do seu pai. Temos o malandro que quebra o coração das garotas apaixonadas, mas no meio do cataclisma, sacrifica acintosamente a própria vida para salvar o amigo que estava com a perna quebrada. Entre sacrifícios e despedidas, a narrativa inteira é permeada por frases desesperadas, conversas sobre a morte ou recados para além-vida: “a gente te salva”; “se eu não me salvar, o que vai dizer aos meus pais?”; “a gente vai morrer”; “alguém nos ajude”; “fala para minha mãe e para meu pai que encontro eles lá no céu”; “ela não vai se salvar, ela é muito pequena”; “se não fosse por você, eu estaria morta”, “a culpa não foi sua”, “elas não conseguiram se salvar”. Fica a imensa sensação de perda, muito bem definida por uma melancólica mãe: “com o filho você está sempre na expectativa de alguma coisa. Você carrega ela por nove meses e fica louca para que nasça logo. Quando dizem mamãe pela primeira vez, você quase desmaia. Lembra quando ela começou a engatinhar? E andar? E pedalar? Sempre pedindo mais. Eu quero voltar. Eu quero sentar ao lado do berço das minhas filhas e olhá-las dormir. Tem um cheiro tão bom. Tonya era tão pequena. Deus queira que não tenha sofrido”.

Rodrigo Almeida


ISSN 2238-5290