Os Descendentes (2011, Alexander Payne)

Estamos todos acostumados a esse cinema ordinário que invade as telas em temporadas de premiações americanas. Alguns se queixam disso, alguns fazem a festa com isso, mas dificilmente algum de nós consegue evitar uma aproximação junto aos incontáveis títulos lançados comercialmente no período. O novo filme de Alexander Payne, seguindo a deixa de seus trabalhos precedentes é mais uma destas lembranças comentadas por muitos às vésperas dos prêmios e que certamente – e corretamente – será silenciada após alguns meses de esquecimento.

Os Descendentes dá continuidade a tudo que Payne fez anteriormente, mas ao contrário do que isso aparente indicar (e do que tanta gente vem dizendo por aí), o cineasta não encontra nesta coerência, autonomia suficiente para ser chamado de Autor. Por mais que o conceito de autoria tenha sido diluído e muito dificilmente possa ser aplicado a cinemas do século presente, ainda persiste uma noção de identidade criativa que pode sempre ser encontrada em alguns dos responsáveis pela assinatura de um filme. São repetições, auto-referências, aspectos formais e espelhamentos temáticos, o que tornam possível identificar algo próximo a um estilo, ao que apressadamente associa-se ao ‘ser autor’. Características que podem definir uma boa apropriação do termo, ou, como na maioria das situações em contexto atual, contribuir para um desgaste absoluto da nomenclatura proposta. Sua ridicularização.

Se Alexander Payne é admirado como autor por alguns, isso acontece porque ele, num punhado de filmes, conseguiu reunir elencos competentes e escrever cenas que fogem ao padrão das celebridades. A rigor, o que amarra seus filmes dentro de uma preocupação comum é justamente esta impressão de despreocupação (nada inocente, por favor). Daí que diante de um filme seu, ficamos propensos a discutir somente as atuações dos intérpretes, os diálogos que delinearam seus personagens, enfim, toda esta grande massa narrativa que não atravessa nenhuma questão necessariamente cinematográfica.

Nesse sentido, em seu novo filme há uma personagem – pois realmente não há como fugir deste domínio, o romanesco, em qualquer comentário a Os Descendentes – que dá bom exemplo do que representa o cinema de Payne na conjuntura atual do sistema americano. É aquela encarnada por Patricia Hastie, a mulher que desencadeia o enredo em jogo. É dela a primeira imagem do filme. Um close; enquanto se diverte no jet-ski que lhe causará um acidente mortal. Imagem solitária, quase desencaixada dentro de tudo e que, talvez por isso, seja a única imagem verdadeira vista aqui. Depois dela, e dos imediatos créditos de abertura, toda a participação da atriz estará limitada a um coma profundo sobre um leito de hospital, restando-lhe um corpo castrado de movimento, mas entupido de psicologia, como provarão todos os desdobramentos do roteiro. Como é exatamente todo o cinema de Payne.

E se poucos reclamam da narrativa moribunda aqui decalcada é porque ela simplesmente não ofende a ninguém. É como um respeito enlutado. Estes silêncios que se obrigam por formalidades e calam um arsenal de mágoas que permanecem profundas. Assim como o protagonista de George Clooney, marido da acidentada, engole todas as traições e mentiras daquela que está à beira da morte, aceitamos este cinema que padece agonicamente sem nenhuma indicação de melhora em seu quadro clínico. Alexander Payne se acomoda cada vez mais a cada novo filme e talvez ele não tenha culpa por isso. Afinal, somos nós quem nos calamos, quem respeitamos e nos acostumamos facilmente com tudo. Os prêmios continuam iguais, as bilheterias vão bem obrigado, então por que esperar algo diferente de um cinema que também se acostumou a si mesmo e ainda não morreu com isso?

Fernando Mendonça

Fevereiro de 2012


ISSN 2238-5290