Os Monstros (2011, Luiz e Ricardo Pretti, Guto Parente & Pedro Diogenes)

Do lugar comum em que se proliferam as discussões sobre certo cinema praticado por jovens brasileiros nos últimos anos, uma das cenas mais intensas de Os Monstros vem emoldurar toda uma (des)preocupação ecoada por este cenário. É aquela dentro de um bar, duração limite do espetáculo intimista que um músico realiza com seu instrumento de sopro. Para ninguém ouvir. Pois durante a performance, desprovida das tolas harmonias aos costumes de ouvidos clássicos, o pequeno público esvazia o ambiente, abandona o artista, sobrando o isolamento da imagem e alguns de nós que, do lado de cá da tela, insistimos em ouvir o que já foi silenciado. O que importa saber, afinal, é quem somos ‘nós’? Estes que permanecem? Ou, em que medida importamos para que a permanência se efetue?

Há sim um questionamento espectatorial nas formulações dos Pretti/Parente, por mais que alguns digam não existir importância ou valoração extrínseca ao que o cinema deles propõe. As três ‘cenas musicais’ que intercalam Os Monstros dão prova disso, pois todas elas lidam com um referente externo, ainda que pela contrariedade de sua exposição. São as mesmas cenas que determinam ser este um filme do abandono, daquilo que se esvazia e sucumbe ao caos, que redireciona o mundo a um grau zero de formação/criação. Na primeira, um homem que toca na madrugada e é abandonado pela mulher, na segunda, o mesmo homem esquecido dentro daquele bar, na terceira, um último espasmo criativo de quatro amigos que já abandonaram particularmente o rigor das velhas expectativas, e que não se podem garantir acompanhados por algum olhar. Pois, sinceramente, não é todo mundo que consegue chegar até o final de uma sessão de Os Monstros, por mais que abandonar uma sala de cinema seja das mais tolas respostas que se possa dar.

O fato é que os inventores de Os Monstros sabem que não estão ali pra agradar, que preferem correr o risco da desistência, dos olhos fechados, até porque, primeiramente, foram eles quem decidiram abandonar, desistir e fechar os olhos a um direcionamento cinematográfico anterior e comum ao público que eles agora enfrentam. Para isso, basta acompanhar uma ou duas de suas cenas, preferencialmente aquelas que não precisam ser ‘explicadas’ em diálogos ou bordões rabiscados em guardanapo. Seja pelos enquadramentos, pela maneira como as câmeras se movimentam ou pela duração atípica dos acontecimentos em jogo, tudo denota um interesse primitivo de jogar contra as regras, ou melhor, de inventar as regras do jogo e assim ficar livre para trapacear a si próprio.

Pois se existe uma trapaça no cinema deste grupo de realizadores ela consiste sempre na verbalização das regras a que eles se impõem. Em diversos momentos seus filmes beiram a destruição pela vã insistência de um cinema falado, por eles mesmos não terem compreendido ser o seu projeto muito mais adequado ao silêncio – de falas, não de sons – que ao verbo. Daí que algumas cenas de Estrada Para Ythaca (o brinde à resistência, a derradeira mesa de boteco) e, principalmente, de Os Monstros (a praia, a festa, o reencontro dos quatro amigos), não conseguirem evitar a canastrice, um irreparável tom de vergonha, de constrangimento pelo que não se deve dizer, mas se insiste em formalizar. Cada uma das palavras proferidas aqui poderia e deveria ser emudecida, cancelada, para assim validar as premissas que norteiam todo aparato visual e sonoro, este sim criativo, que o grupo alcança. E eles parecem dar conta disso quando obrigam um dos personagens a ficar repetindo cansativamente, numa pegação dentro da festa, que ele ama a mulher beijada e acariciada. A mulher que não crê. Mas não é pela repetição da palavra que uma imagem se redime.

Para que um filme seja, ele não precisa se justificar. Por isso ficamos no aguardo do filme em que os Pretti/Parente saberão calar sua ânsia libertária a favor do potencial cinematográfico que até aqui eles demonstraram nutrir. Se Os Monstros ainda não é a promessa cumprida da autonomia desejada pelos diretores, ele já consegue o feito de posicionar melhor o projeto em que se insere, facilitando uma futura ausência de nomeação, daquilo que delimita. Um cinema que se organiza como que musicalmente, mas como em música de improviso. Enquanto eles continuarem baseando suas imagens em frases e vontades expressas, seu cinema será algo incompleto, na verdade muito próximo daquilo a que eles mesmos lutam contra. Como cineastas, os Pretti/Parente ainda não passam de bons músicos.

Fernando Mendonça

Fevereiro de 2012


ISSN 2238-5290