A Separação (2011, Asghar Farhadi)

Ângulos confrontados

Ao redor do cinema de Asghar Farhadi parece existir uma quarta dimensão fantasmagórica, uma pilaste de “assombração” que trespassa o momento do agora, que evidencia o jogo de reflexos negados pelos seus personagens – de assunções que jamais poderão ser confirmadas –, cujo negar os transforma em assombrações da realidade, que reafirmam os ângulos – fantasmas – de uma mesma história, de uma mesma dor. Lócus da mentira: se em À Procura de Elly (Darbareye Elly, 2009) Farhadi expõe o poder da mentira – ou da não-verdade – como espelho do machismo iraniano para camuflar o desaparecimento do Corpo – do Próprio ou de um Outro -, em A Separação o cineasta busca através da imagem que projeta a construção dos sombrios fluidos morais e sociais que subscrevem uma sociedade acorrentada no arcaico, no medo e no dogma.

A Separação, assim como Elly, tem fundamentalmente o vício fantasmagórico do ângulo da história: o que existe no primeiro é o acúmulo da mentira – que se multiplica perante os envolvidos, pois não existe a verdade intocável, absoluta que sopre em nenhum dos lados, é tudo disfarce para os corpos que se locomovem, máscara esdrúxula daquela realidade –, porque há o peso do sexo e da classe social que faz emergir o ponto de contato – que é confronto, aqui, mais do que tudo, a bifurcação do olhar, da mirada entre as partes (os ângulos) envolvidas: de um lado o olhar angustiante de um homem de classe média que vê seu casamento se desintegrar no momento em que sua mulher decide sair do Irã, e ele se nega a marchar porque acredita em sua obrigação em cuidar do pai que sofre de Alzheimer, assim, o divórcio parecia a única saída, porém a administração judicial se nega a concedê-lo pois considera as razões para tal demasiadamente frágeis – aí se enraíza mais uma possibilidade angular: a do olhar externo que enxerga todo esse enfrentamento como arquivo supérfluo. Tudo se complica no momento em que um incidente envolvendo a mulher que cuida de seu pai explode para além das questões pessoais e que acaba envolvendo toda família – inclusive a da própria mulher.

O vácuo do mundo: Logos (intrapessoais) que se erguem através da distância, logo, esse Logos é visagem, é a condenação da consciência, é a assombração pelo medo da honra perdida – e não há nada que preencha um homem mais do que a sua honra, esse Logos da humanidade, indecifrável, indeterminável –, por isso quando o marido (que estava desempregado há meses) da mulher que cuidava do velho com Alzheimer toma consciência dos verdadeiros ângulos daquela história, sua ação sobre si é de chorar pelo fantasma da verdade que a partir dali o perseguirá como quimera mefistofeliana: é o homem que apenas na carne recebe o direito da reconsientização – porque naquela vida pós-morte de um corpo querido só lhe resta a honra: os ângulos fantasmagóricos parecem se desvanecerem ao primeiro ato sob a tutela da verdade: o homem que chora, que lacrimeja sua dor, que expurga seus (e aqueles outros) fantasmas, que pede perdão – e que é perdoado. Há, sem embargo, a tentativa de ambas as partes de expor os fantasmas da mentira. E os expõem, mas já é demasiadamente tarde. O ângulo-fantasma do olhar já está amaldiçoado. O último plano do filme resume-o: as paredes que separam o homem e a mulher. Paredes de fogo, provavelmente: não existe recomeço, reaproximação, a distância é o vácuo, é o fim.

Ricardo Lessa Filho

Fevereiro de 2012


ISSN 2238-5290