Ariel (1988, Aki Kaurismäki)

Se o proletário de Sergei Eisenstein procura a revolução e o de Elio Petri vai ao paraíso, no de Kaurismäki a fuga para um novo mundo é traço constante em sua obra. Em Calamari Union a busca é frenética e sem direção e em Contratei um Matador Profissional o protagonista é forçado pela própria vontade de viver. Mas em Ariel é a liberdade que irá mover seu desejo de uma longa fuga, indo em direção a América do Sul (porque será?). Ex-minerador vai para a cidade grande à procura de emprego, é assaltado no meio do caminho, conhece uma camareira, se envolve, termina preso e procura todos os meios para fugir. Não, não se trata de um filme qualquer, mesmo com um roteiro simples. O ser social do protagonista não sabe aonde ir, nem o que fazer.

O drama aqui persiste mais que o humor, ainda que a situação extrema que o indivíduo passa sempre encontra alguma pessoa que vive na mesma situação e isso passa um sentimento humano e de solidariedade. Numa sociedade como a finlandesa, o frio parece aqui não tomar a humanidade de alguns personagens. A mulher com quem o protagonista se envolve é mãe solteira e seu filho cria laços fraternais com o protagonista pelo desejo de ter um pai e mesmo ele (o protagonista) cria vínculos afetivos com o garoto. Quando o protagonista é preso ao tentar pegar de volta o dinheiro dos assaltantes que o roubaram, Kaurismäki critica o sistema judiciário à luz dos que não possuem financeiramente o poder de se defender. Sem nem mesmo ouvir as declarações o júri condena sem nem mesmo analisar o caso. Se a sociedade demonstra ser indiferente, será o ser individual que o homem encontrará um mínimo de humanidade. Seu colega de cela, interpretado por ninguém menos que Matti Pellonpää (Sombras no Paraíso, Calamari Union), demonstra ser um amigo e o único ser que o nosso protagonista poderá se comunicar.

Mais uma vez Kaurismäki coloca dois indivíduos de mesma classe na mesma situação. Ambos possuem o desejo de escapar o mais rápido possível da prisão e continuarem suas vidas o mais longe dali. Talvez seja essa a característica que defina perfeitamente a trilogia do proletariado (Sombras no Paraíso, Ariel e A Menina da Fábrica de Fósforos) e não só a trilogia, mas boa parte de sua obra. Nenhum individuo encontra-se isolado numa situação. Por mais que a sociedade tente impedir as vontades dos personagens, estes últimos sempre encontram em outro individuo uma solidariedade que o apoiará. Esse é o perfil humano nos filmes do diretor e que Ariel singulariza na figura da mulher e seu filho, que mesmo com o protagonista na prisão permanecem solidários, ou seu colega de cela que até então não encontrara nenhum grande motivo para fugir.

Nuno Balducci

Junho de 2010


ISSN 2238-5290