Um Verão Escaldante (2011, Philippe Garrel)

O novo filme de Philippe Garrel é fascinante. A esta altura de sua carreira, é normal que se espere que ele tenha se transformado em alguma espécie de velho dinossauro repetindo uma fórmula já consolidada (e a recepção mista de Um Verão Escaldante talvez aponte para isso). Porém, Garrel, que surpreendeu a todos em 2004 com o lindíssimo Amantes constantes, mostra, com Um Verão Escaldante, que sempre vai ser jovem, que nunca deixará de ser aquele garoto que foge de casa em seu primeiro filme, o curta Les enfants désaccordés, de 1964. Há algo de muito novo e fresco neste seu longa mais recente. Esta crítica é uma tentativa de traduzir algumas impressões que são ainda vagas e sem forma, mas fortes.

Do mesmo modo que em Amantes constantes, a novidade que pode ser sentida em Um Verão Escaldante vem acompanhada, paradoxalmente, de velhas obsessões de Garrel que se repetem ao longo da sua filmografia. E não podia ser diferente, fazendo ele parte da primeira geração de filhos em linhagem direta da Nouvelle Vague: é esse modo de produção cinematográfica que ele conhece, o modo do auteur (que, bem entendido, não é o único nem mais legítimo modo de fazer um cinema verdadeiro). Assim, temos um casal, Angele e Frederick, consumido por uma dilaceração romântica destrutiva; temos outro, Elisabeth e Paul, cuja perspectiva de mundo mudará após conceberem um filho; temos suicídios, diálogos que só existem na temporalidade única de uma cama pós-sexo, a ligação estranha entre amor e política (em uma cena do filme, Garrel faz um comentário incisivo sobre a França de Sarkozy)…

Mas tudo isso constrói aqui uma diegese estranha, talvez só pressentida em latência em outros filmes anteriores de Garrel. Ao contrário do preto-e-branco nostálgico de Amantes constantes ou A fronteira da alvorada, a fotografia de Um Verão Escaldante é atordoantemente límpida, cristalina, como um sol muito forte que ilumina um espaço onde nenhuma partícula de poeira sobrevoa no ar. A maior parte do filme se passa na mansão de Frédéric e Angèle, na Itália. Paul afirma que poderia passar o resto da vida lá. É um lugar isolado, onde é possível encontrar os prazeres embriagantes de uma espécie de utopia torpe. A atmosfera criada a partir disso é um pouco fantástica, talvez como em A cicatriz interior, mas aqui Garrel não precisa de roupas de princesa: sentimos que a trama se passa no mais contemporâneo dos contemporâneos. Garrel transforma o atual numa miragem (difícil escolher uma palavra aqui: miragem sonho, lembrança, visão?).

Isso também ocorre em grande parte por causa do diálogo estreito, no filme, entre a mise-en-scène e a pintura. Se o que se passa na mansão tem algo das orgias decadentistas de Ingres (e o plano de Monica Bellucci nua na cama logo no início não é mais que isso), Garrel, ao filmar os olhos afiados e achatados de Elisabeth (Céline Sallette, um achado!) transforma tudo numa fantasia de Gustave Moureau (ver a cena incrível de Elisabeth sonâmbula/zumbi na piscina da mansão à noite). Se é assim, Bellucci é a Salomé de Garrel. Vestida sempre, apenas (até a toalha de banho), de preto, como num eterno luto, Angèle é uma mulher lindíssima já apresentando sinais do envelhecimento (outra cena incrível e assustadora: o rato encontrado no guarda-roupa). Outro diálogo com a pintura se dá através da cor azul – um azul escuro/marinho tão brilhante e artodoante como a fotografia. Das camisas e pinturas de Frédéric (ele é um pintor), às paredes da mansão (até uma cafeteira), a presença desse azul lembra o modo como o Godard dos anos 60 usava as cores em sua encenação. Garrel traz de volta esse Godard, mas de uma forma completamente nova. Um Verão Escaldante é um filme pra se tentar assimilar.

André Antônio

Março de 2012


ISSN 2238-5290