O Artista (2011, Michel Hazanavicius)

“O indiferente”

Há sempre em um confronto (crítico, textual, corpóreo) a necessidade de, de certo modo, expor uma ideia de contramão, de dissidência ao que está sendo amplamente vinculado acerca do objeto confrontado: destruir aquele belo carte-de-visite que parece assolar as partes envolvidas que, antes de tudo, deveriam submergir no mais profundo das paredes artísticas para vislumbrar as mentiras mais bem guardadas do objeto estudado, pois, sobretudo, haverá de ser encontrado nele o amor ou o ódio mais dilacerantes – como em um Cavalo de Guerra (2011), de Spielberg –, porque ao mergulhar nos pântanos da história daquele objeto, ele por si só se tornará, então, parte dessa história, algo maior do que o momento, porque agora ele também é memória.

Mas e quando esse objeto ressentido da expurgação do amor ou do ódio, faz o espectador saborear a indiferença mesmo quando ele compreende os signos ali projetados – e que mesmo discordando, o ódio nunca parece ser a construção de sua espoleta crítica? O que falar desse objeto, desse filme chamado O Artista, a não ser acusá-lo de ser um monstro disderiano, de vomitar fantasmas de outrora em sua diegese e por fim (mas nunca enfim), fantasmaticamente, ver os personagens desse filme espalhando e devolvendo os traços de seu criador, tentando reivindicar um passado que nunca foi aquele e portanto, jamais existiu – e por isso um passado catastroficamente fantasmagórico?

Na mesma alameda desse traço-fantasma que é o passado-presente do filme, existe o cinema que não fala, que não emite som (que numa primeira instância é por limitações tecnológicas; e, depois, por limitações do orgulho), que parece não poder conceber algo que fale que emita ruídos, sussurros, mas que em seu crepúsculo, almeja desafiar o espectador cromo que é o homem pós-moderno – incapaz de escutar os diálogos do silêncio ao seu redor, e que precisa se apegar no som super extra-diegético de Hollywood para poder averiguar a qualidade de um filme. Porque, por outro lado, o cinema mudo é para muitos um cinema de superfície visual danificada pelo tempo, imperfeito, forrado, com saltos visuais e sonoros, que marcham em outra velocidade e cujos atores exageram na expressão corporal.

É de um depósito de fatores da materialidade que carece por completo O Artista. Mas, sem ir mais longe, algo parecido ocorre com The Saddest Music in the World (2003), e com todo o cinema de Guy Maddin. No filme de Michel Hazanavicius a percepção do tempo é justamente o que falta – a percepção de algo muito mais profundo e consistente do que a simpatia de um passado que jamais se manifesta, e que se faz galanteador sem demasiado esforço. A esse “lack” de percepção sobre o tempo que o filme evoca, Hazanavicius parece querer substituir pondo em cena alguns atores fotogênicos, um branco e preto sem peso e um cachorrinho (não um cachorro). Porém, não há cenas nem planos em que o filme se expanda e desempenhe um fundo, que faça valer a profundidade da época daquela história. Apenas no momento em que algo aparenta ser relevante – ali quando a protagonista abraça o fraque da estrela – é que alguma coisa poderia partir como ponto de impulso para um maravilhoso desenvolvimento cinemático de baile, clown ou slapstick, situação logo abortada imediatamente, sem graça nem significação alguma.

O Artista é um filme que evoca uma era, que se manifesta num silêncio planejado, mas que jamais será molde do cinema mudo (o que verdadeiramente existiu) porque há “complexidade” demais em seu início, tampouco estão lá as clássicas expressões exageradas dos atores em primeiros-planos. Arrisco-me a dizer que isso não ocorre porque, de algum modo, o filme tem vergonha em expor um meio de atuação tão “primitivo” em pleno século XXI – ou seja, automaticamente quando o filme se envergonha do modus operandi daqueles filmes que ele diz homenagear, a obra de Hazanavicius mata dois coelhos numa só cajadada: a história e a sua veracidade enquanto traço-fantasma. Definitivamente, nunca um filme me foi tão reiterativo e inofensivo como O Artista – que, com o perdão do trocadilho, poderia ser chamado de “O Indiferente”.

Ricardo Lessa Filho

Março de 2012


ISSN 2238-5290