Tão Forte e Tão Perto (2011, Stephen Daldry)

No recente filme dos irmãos Dardenne, O Garoto da Bicicleta (2011), encontramos uma cena que guarda paralelo aos embates entre mãe e filho presentes no último trabalho de Stephen Daldry. Os diretores belgas, no rigor de sua composição de câmera, fazem com que uma mulher adulta confronte um menino (Cécile De France X Thomas Doret) numa explosão de ânimos como somente um olhar muito apurado é capaz de obter. Assim como em Tão Forte e Tão Perto, a cena decorre de um choque que não diz respeito diretamente ao conflito que os personagens mantêm entre si; em ambos os casos, os atos dramáticos são conseqüência de um desentendimento interno aos meninos, fruto da conscientização que precisam atravessar diante da ausência paterna, da figura amada que se foi, configuradora da infante tragédia. O que diferencia as cenas, muito mais do que a qualidade dos diálogos e dos atores – o contraste também é extremo –, está relacionado ao entendimento fundamental que os realizadores nutrem do artifício de sua linguagem, daquilo que define a expressão de suas obras, seja no sentido individual dos filmes, seja no quesito ‘carreira’ construído por eles.

Para os Dardenne, filmar um evento é encontrar o equilíbrio das forças que regem o movimento, é aproximar-se com a justa distância que um corpo pede, encontrando sua pele e dilatando-a na contigüidade do espaço que a circunda. É como encontrar a pele do mundo. Fazer dela matéria, coisa palpável. Para Daldry, filmar é submeter-se as fórmulas de controle que a encenação exige, é distanciar-se injustamente dos corpos para obedecer a um método, arrancando-lhes a pele, o que há de espontâneo neles. Daí todos os seus filmes precisarem de elencos que sustentem o drama, que o alicercem. Se nos Dardenne os intérpretes emergem como conseqüência do drama, como quase vítimas das condições partilhadas pelos personagens, em Daldry eles sempre o antecedem, dão as cartas, ditam o jogo. Ter esta fragilidade finalmente revelada a um nível constrangedor – até aqui ela fora só pressentida, certamente porque os elencos anteriores cumpriram seu papel com perfeição –, compromete não só o nome do cineasta, mas todo um modus operandi particular ao sistema norte americano de produção.

Tão Forte e Tão Perto é exemplo insuperável de uma janela de exibição nacionalista: filme de temática e narrativa norte americanas, direcionado explicitamente para os corações norte americanos – pois nada nele pode sensibilizar o olhar ou ultrapassar a emoção barata –, a ser consumido por dólares e lenços norte americanos e premiado por júris que não podem atravessar as fronteiras da América. O filme é tão meticulosamente talhado para um público geográfico, político e economicamente definido, que torna-se curioso ele não ter sido bem recebido pelos seus. Ao castrar sua narrativa dentro dos padrões mais previsíveis de espectadores acostumados às lágrimas, Daldry finalizou um filme órfão, que sofre como seu protagonista de uma ausência absoluta de objetivos, que mergulha num estado de luto unicamente capaz de trazer a morte sobre si próprio.

Concentramos o foco nas cenas entre mãe e filho de Tão Forte e Tão Perto, porque nelas há uma clara exposição do trauma aqui sofrido pela imagem. Longe de vislumbrar a violenta potência que a mulher e o menino de O Garoto da Bicicleta alcançam, a dupla agora enfocada (Sandra Bullock X Thomas Horn) sedimenta o verdadeiro tema de certo cinema americano pós-11 de setembro: a ausência forçada do corpo, sua impossibilidade, o seqüestro das formas. Seguindo a corrente de uma geração que já não pode enfrentar a finitude de maneira pacífica e por isso restringe seus meios de expressão a uma paz forjada, Stephen Daldry completa mais um retrato auto-piedoso e hipócrita destes tempos não memorizáveis. É como se já não fosse possível encarar a violência de frente, enfrentá-la com sua própria moeda, como se para resistir ao corpo fosse preciso abandoná-lo, destituí-lo da destruição que lhe é própria e que funda determinadas propriedades da vida. Assim como o menino de seu filme enfrenta o desaparecimento do corpo paterno imolando seu próprio corpo inocente com feridas provocadas pelas unhas, Daldry condena o cinema a mais um episódio de silenciamento, de falso respeito por aquilo que pode inspirar um filme. Tão Forte e Tão Perto é vergonha não só contra um recente episódio histórico, é filme que ofende a vida.

Fernando Mendonça

Março de 2012


ISSN 2238-5290