Habemus Papam (2011, Nanni Moretti)

Logo no início de Habemus Papam, Nanni Moretti sinaliza a pretensão de um filme que se debruce sobre um lado dos fatos que não vemos. É na formação do conclave papal, diante dos jornalistas, que o Porta voz do Vaticano (Jerzy Stuhr, em atuação injustamente ofuscada pelos holofotes do próprio filme sobre Piccoli) declara ser aquele o limite para o acesso da imprensa, pois a partir dali a mídia não pode ultrapassar e todas as informações deverão ser mediadas por sua pessoa durante o processo de escolha do novo Papa. Demarcado o espaço de representação e invenção, de imediato sentimos a potência de uma obra que terá toda a liberdade para desenvolver um mundo que, desde sua organização material, baseia-se em princípios ficcionais de sobrevivência.

É natural que todos, seja nas fronteiras de uma nação ou mesmo a nível global, durante um período tão delicado de sucessão do poder, imaginem as mais diversas situações a ocorrer dentro daquele império invisível, intocável, de intensa santificação (do latim santificatione, no claro sentido de separação do mundo, daquilo que se vê), por isso espera-se de um trabalho que assuma a ficção como norte a capacidade de romper as estruturas num imaginário que forçosamente já pede para ser dessacralizado, ser reinventado sob um ponto de vista qualquer, já que nenhuma perspectiva pode ser comprovada como factual. Ao optar pelo registro cômico, Moretti termina por recair – não pela comédia em si, mas pela maneira como ele a constrói – num lugar comum de encenação que anula todo o horizonte aberto pelo seu belo prólogo.

Ao se valer do olhar da imprensa enquanto contraponto de expectativas, tornando evidente que os meios de comunicação apenas validam o nível de espetáculo pedido pela própria Igreja, Moretti nivela seu Habemus Papam à altura do olhar publicitário, pois nada mais faz senão corroborar o circo de cores e sombras que agrega um espaço onde quase não sobram vestígios da motivação divina, de onde o sagrado há muito se retirou. Vir com a desculpa de ‘humanizar’ a imagem do Papa, além de ser um ponto de partida vencido pelo próprio cinema (que recentemente insiste no estúpido processo da imagem autopiedosa, seja com Cristo, seja com Hitler), é premissa que não pode ser completada sem que se rompa uma verossimilhança mínima, pois imagem não é, e nunca poderá ser, uma coisa humana.

Se o personagem do próprio Moretti no filme, talvez o analista mais inocente da história do cinema, não encontra possibilidade de movimento e influência dentro dos espaços santos, é porque muito longe de ele significar um ponto de contato com a dimensão mundana da espiritualidade, tudo o que ele faz é servir como válvula de escape para o riso, piscadela ordinária de um diretor para o intelecto previsível de seu público. Daí serem cenas como aquelas em que os padres e bispos jogam vôlei dentro do Vaticano (ah, o que não teria feito um Buñuel com este material em mãos…), estereótipos de um imaginário que se confirma, repetimos, como numa publicidade, na identificação de espaços que prosseguem desconexos com o mundo externo.

Por mais que o personagem do novo Papa (Michel Piccoli) consiga manter o interesse criativo primeiro de Habemus – motivo pautado pelo espelhamento da vida religiosa com o palco teatral, bem colocado por um Piccoli que ironicamente assume ser um ator frustrado –, não se pode dizer que Moretti tenha cumprido com sua obra aquilo que desde a abertura fora prometido. Se até mesmo a sequência final vê seu elemento surpresa diluído por um público que é consciente da alteridade histórica própria ao cinema (geração pós-Bastardos Inglórios, sempre bom lembrar), aí o sinal de que as consequências de um filme como Habemus Papam são inofensivas e pouco duram após o término da sessão. Continuamos no previsível, domínio de Nanni Moretti, realizador que nunca fez exatamente um cinema de consequências.

Fernando Mendonça

Abril de 2012


ISSN 2238-5290